sexta-feira, 27 de fevereiro de 2015

A mercearia e a salvação


Enquanto andamos entretidos com as peripécias do caso grego, uns ansiando pela humilhação de Tsipras e de Varoufakis, outros cantando hossanas ao novo paraíso social que vêem no horizonte, o mundo desloca-se rapidamente e parece tomar caminhos insuspeitos, caminhos que as nossas categorias mentais são incapazes de perceber. Na verdade, aquilo que se passa na Europa, onde se inclui a questão grega e a nossa pequena miséria, não passa de um problema de mercearia insignificante. Não é que as questões de mercearia não sejam importantes, são-no, mas há mais mundo do que aquele que se vende numa mercearia, mesmo que esta seja um hipermercado. As questões de mercearia tomaram conta dos sonhos dos políticos, cegando-os para aquilo que está aí.

A questão para nós europeus – em especial para os ibéricos – tem uma natureza religiosa e não económica. O problema vem crescendo há muito, mas só agora começa a tomar contornos claros, que permitem perceber o quanto estão desfocadas as nossas interpretações do mundo. Trata-se do avanço e do poder de atracção do denominado Estado Islâmico (ISIS). As pessoas não fazem ideia, mas esse grupo já domina uma área geográfica, na Síria e no Iraque, idêntica à da Grã-Bretanha. Faz incursões no Egipto e penetrou na Líbia, onde espera abrir uma porta para entrar na Europa. Nesta reivindicam como território próprio a Península Ibérica, embora as fronteiras possíveis do Califado sejam o planeta. Aquilo que chama a atenção das pessoas é o espectáculo da extrema crueldade com que o grupo age, a ausência de compaixão perante os que são diferentes, a insensatez dos jovens ocidentais que se lhe juntam, a capacidade militar que tem evidenciado.

O perigo central, porém, vem das ideias que estão por detrás do movimento. Para nós, são incompreensíveis, pois eles representam uma absoluta recusa do mundo moderno. Crêem firmemente que se aproxima o apocalipse, que nos aproximamos do Juízo Final, e que o Islão – sob sua direcção – se prepara para derrotar Roma (o mundo cristão) e governar sobre a Terra, segundo a lei corânica. Enquanto nós discutimos empréstimos, enquanto estamos visceralmente ocupados com a evolução dos mercados, aqui ao lado estão a preparar o fim do nosso mundo. Se o puderem fazer, se puderem destruir toda a nossa cultura e civilização, eles fá-lo-ão. E têm algumas vantagens sobre nós: não têm medo de morrer e crêem que são os emissários de Deus para pôr ordem na desordem do mundo. O que mais pode mover um jovem do que sentir que a salvação da humanidade depende da sua acção? Discutamos então a mercearia.