sexta-feira, 6 de fevereiro de 2015

Da necessidade da política


Devo a Zygmunt Bauman a descoberta do conceito de interregno tal como foi pensado por Gramsci. Interregno é uma situação na qual a antiga maneira de fazer as coisas já não funciona, mas ainda não se encontrou a nova forma de resolver os problemas. Este conceito é interessante para caracterizar os tempos que vivemos. De facto, as antigas soluções políticas – aquelas que faziam do Estado um mecanismo para equilíbrio social e funcionamento democrático da comunidade – deixaram de funcionar. As que têm sido agora utilizadas – fundadas na ideia de que o mercado livre resolverá todos os problemas – também mostraram que não servem. Como salienta Bauman, mesmo os governantes honestos estão espartilhados entre a fidelidade aos eleitores ou aos investidores. O ser fiel aos eleitores afasta os investidores. A lealdade aos investidores gera a fúria e o ressentimento dos eleitores. Este impasse caracteriza o interregno em que vivemos.

Não havendo solução disponível de momento, será importante compreender como é que as elites políticas europeias se deixaram espartilhar entre o capital global, do qual dependem os investimentos, e os eleitores locais, dos quais depende a legitimidade para governar. Esta situação não foi o resultado de uma evolução espontânea na vida das sociedades ocidentais. Ela não estava inscrita na natureza do mundo. Ela resultou de uma deliberação política que emancipou os capitais da tutela dos Estados. A situação em que vivemos foi uma criação das próprias elites políticas ocidentais que trocaram os seus eleitores pelos interesses dos grandes grupos financeiros. Dito de outra maneira, se hoje em dia as elites políticas ocidentais estão de pés e mãos atadas, isso acontece porque assim o quiseram.

Esta constatação não acaba com o interregno, não diz como se poderão solucionar os problemas existentes, nomeadamente o da destruição das classes médias, suporte dos regimes democráticos. Mas ao tornar claro que a actual situação se deve à decisão dos políticos e que tem na origem uma opção política, nós percebemos de imediato duas coisas. Em primeiro lugar, a alteração da situação não pode vir da economia, das finanças, dos mercados. Em segundo lugar, compreendemos que essa alteração tem de vir da política, de uma alteração das práticas e das opções governativas. O que coloca aos actores políticos um dilema. Ou deixam-se arrastar na situação actual, como o actual governo português, ou procuram uma saída, fazendo da política um campo de experiências e de inovação. A mercantilização da vida social e a aniquilação da política falharam. A política continua a ser necessária. Uma nova política.