quinta-feira, 5 de fevereiro de 2015

O meu gene leninista

Irakliy Toidze - Vladimir Lenin

Nos tempos conturbados que vivemos na União Europeia, com a ausência de pensamento que há muito tomou conta da nomenclatura europeia e da direita intelectual portuguesa, mas também a de esquerda, retomo um texto do meu antigo blogue averomundo (2009/12/13).

O filósofo Slavoj Zizek conta, no seu livro Violência (Relógio d'Água, 2009), uma anedota corrente na antiga União Soviética entre estudantes. «A anedota é a seguinte: perguntaram a Marx, a Engels e a Lenine se preferiam ter uma esposa ou uma amante. Como seria de esperar, Marx, bastante conservador no que diz respeito à esfera privada, respondeu: "Uma esposa!" - ao passo que Engels, com o seu lado de bon vivant, optou por declarar que preferia uma amante. Para surpresa geral, a resposta de Lenine foi: "Gostava de ter as duas!" Porquê? Haveria nele um traço de jouisseur decadente, que a sua austera imagem de revolucionário dissimularia? De maneira nenhuma. Eis a explicação de Lenine: "É que assim podia dizer à minha mulher que vou ter com a minha amante, e à minha amante que tenho de ir ter com a minha mulher..." - "E ia para onde, então?" - "Para um lugar isolado, para estudar, estudar e estudar!"» Esta história sublinhava a verdadeira fixação do dirigente da Revolução de Outubro no estudo.

Conta ainda Zizek que, aquando da catástrofe de 1914, Lenine refugiou-se na Suíça, onde em vez de se entregar a um desbragado activismo, se entreteve a estudar, estudar, estudar Hegel. E não pensem que se entreve com a Filosofia do Direito, ou com os ensaios sobre a História ou sequer com a Fenomenologia do Espírito, com a sua análise do Terror na Revolução Francesa ou a dialéctica do senhor e do escravo. Dedicou-se ao estudo daquilo que Hegel escreveu de mais abstracto, mais árido e mais difícil, a Ciência da Lógica. Mas o que gostava de sublinhar é a diferença desta atitude contemplativa de Lenine relativamente à conhecidíssima 11.ª tese de Marx ad Feuerbach: «Até agora os filósofos têm interpretado o mundo de diversas maneiras, mas o que verdadeiramente importa é transformá-lo!» Como é que um contemplativo, um homem que afinal estava interessadíssimo em interpretar o mundo, se tornou no responsável por um dos maiores acontecimentos históricos do século XX? Contrariamente ao que se pensa, não são aqueles que fazem muitas coisas que mudam o curso dos acontecimentos. Quantas mudanças históricas dependem do simples acto de estar quieto e pensar. Mas mesmo que não mude o mundo, aquele que pensa tem uma vantagem sobre os activistas, não cria desordem pela sua acção.