sexta-feira, 13 de fevereiro de 2015

Servir os carrascos

A minha crónica semanal no Jornal Torrejano.

Vítor Bento publicou no Observador um importante ensaio sobre o ajustamento imposto aos países da Europa do sul. Quem é Vítor Bento? É um respeitado economista, muito próximo de Cavaco Silva e do actual governo. O ensaio publicado desmente pura e simplesmente, com análise económica fundamentada, toda a história que o governo e a União Europeia nos andaram a impingir. Cito: “Esta forma de ajustamento tem, portanto, envolvido uma efectiva transferência de bem-estar social (incluindo emprego) dos Deficitários [onde se encontra Portugal] para os Excedentários [onde está a Alemanha]. E aqui reside a grande falha da argumentação moral que tem subjazido à condução do processo, pois que não são os Excedentários que têm estado a sustentar o bem estar dos Deficitários, mas o contrário.” Dito de outra maneira, e ao contrário do que tem sido propagandeado pelos adeptos do governo: não são os países pobres do sul da Europa, entre eles Portugal, que têm vivido à custa dos ricos, mas o contrário.

A Alemanha e outros países ricos têm aproveitado a crise para beneficiarem as suas elites à custa da pobreza gerada nos países sob intervenção da troika. Que os países ricos da Europa se portem assim é compreensível. Os fortes sempre gostaram de se alimentar do sangue dos fracos. O problema reside na colaboração dos governantes dos países do Sul com aqueles que espoliam os seus povos, destroem as suas classes médias, obrigam à venda dos seus recursos, condenam grande parte da população à miséria. Numa leitura benigna poder-se-ia dizer que os governantes dos países do Sul sofrem de Síndrome de Estocolmo, segundo o qual as pessoas submetidas a uma prolongada intimidação passam a simpatizar com os agressores, identificando-se com eles.

O problema é que os governantes dos países do sul da Europa não foram intimidados. Se os povos do sul da Europa são vítimas, conforme resulta do ensaio de Vítor Bento, os seus governantes não o são. Eles quiseram essas políticas, apostaram na punição dos seus povos e na destruição do Estado social. Eles aliaram-se aos carrascos, foram ainda mais severos que os próprios carrascos. O governo português cortou o dobro na Saúde do que tinha sido imposto pela troika. Em Portugal, o Serviço Nacional de Saúde foi posto de pantanas, a Educação tornou-se caótica e parte substancial da Ciência foi liquidada. Tudo por iniciativa do governo português. Não, os nossos governantes não sofrem de Síndrome de Estocolmo, mas o seu comportamento tem um nome. Sabe o leitor qual é?