quinta-feira, 5 de março de 2015

A monstruosa complacência

Salvador Dali - Monstruo blanco en un paisaje angélico (1977)

Esta embrulhada contributiva de Passos Coelho é uma irrelevância num país como o nosso. Mal a coisa veio a lume, os amigos e os inimigos políticos do primeiro-ministro trataram de ocultar a natureza da coisa, ao transformá-la em facto político. A partir do momento que ela é um caso político, Passos Coelho respira de alívio, tem mesmo a possibilidade de se transformar em vítima dos seus inimigos, os quais, por pura ambição, o desejam ver pelas ruas da amargura. Na verdade, o caso é político, mas não no sentido que lhe damos, no sentido do conflito pela ocupação do poder. É político porque nos conta uma história acerca da nossa pólis e da forma como os actores que a dirigem se relacionam com os seus deveres para com a comunidade. Passos Coelho não terá cometido um crime fiscal, claro. Tem apenas uma relação difícil com as leis contributivas. "É um contribuinte relapso". Até aí não me parece que exista nada de monstruoso. Monstruoso é outra coisa. Monstruoso é o caldo cultural que acha normal que contribuintes relapsos possam governar a comunidade, que a representem, que não sintam qualquer pudor em entrar na vida política. Monstruoso é o facto de não sermos exigentes para com as elites políticas, pois essa falta de exigência é o reverso da nossa complacência para connosco. Uma monstruoso complacência com aparência angélica.