quarta-feira, 11 de março de 2015

A pomba, a serpente, a ovelha e o lobo

Juan Soriano - Serpiente (1979)

Eu vos envio como ovelhas no meio de lobos. Sede, pois, prudentes como as serpentes, mas simples como as pombas. (Mateus 10:16)

No inconsciente colectivo existe um arquétipo do governante em democracia como pastor, o bom pastor. Espera-se que ele seja simples como as pombas, que esteja perto das pessoas, mas prudente como a serpente, que utilize a razão crítica para se olhar a si e às suas opções. Ora a virtude da prudência é uma coisa que, de há muito, parece arredada da esfera do poder. Todo este triste imbróglio do actual primeiro-ministro com os seus deveres contributivos é um exemplo - o qual é acentuado pela ferocidade luterana com que Passos Coelho tem agido sobre as débeis ovelhas do rebanho - de que a virtude da prudência há muito abandonou as preocupações daqueles que se dedicam à luta pelo pastorado. Podemos perguntar por que razão a prudência da serpente deixou de ser uma virtude essencial na política. Uma resposta aceitável dir-nos-á que os políticos não são prudentes como a serpente porque também não são simples como a pomba. E isso - apesar de se tratar, por norma, de gente simplória - não deixa de ser verdade. Mas a causa principal é que eles não se julgam como pastores e muito menos como ovelhas. Anseiam ser lobos no meio de ovelhas e a sua missão não é proteger o rebanho, mas dizimá-lo.