domingo, 1 de março de 2015

Aquilo que merecemos

Francesco Clemente - Memoria (1996)

Há um problema qualquer connosco. Sim, connosco. O anterior primeiro-ministro está preso por suspeita de condutas inaceitáveis. O actual esqueceu-se, durante anos, de regularizar as suas contribuições fiscais. Ao ler o artigo do Público, parece que Passos Coelho sofre ou sofreu de algum transtorno de memória. Eu não estou a afirmar que Sócrates é corrupto ou que Passos Coelho fugiu aos impostos. Não, não é isso que me interessa. Os tribunais existem para isso. O que me interessa é outra coisa: por que razão não conseguimos escolher gente para nos governar que não seja distraída e que esteja acima de toda e qualquer suspeita? Por que motivo as pessoas que são escrupulosas com o bem comum parecem estar completamente arredadas do poder? O problema não é dos políticos. É nosso, que os aceitamos, que votamos, que os legitimamos. E fazemos isso de tal maneira que eles sabem que as faltas de memória ou interpretações abusivas dos limites do poder nunca serão penalizadas pelos eleitores. Somos nós, portugueses, que criamos e alimentamos todos estes personagens equívocos. Depois, queixamo-nos, mas as últimas sondagens lá indicavam mais de 75% dos votos para os partidos habituais. Não merecemos mais do que aquilo que temos.