segunda-feira, 23 de março de 2015

Da dissolução da Pólis

William Blake - Behemoth and Leviathan

O lamento tradicional de que o marxismo carece de toda a reflexão política autónoma, tende a impressionar-nos como sendo uma força, e não uma fraqueza. Pois o marxismo não é uma filosofia política; embora exista, sem dúvida, uma prática marxista da política, o pensamento político marxista, quando não é prático, tem exclusivamente a ver com a organização da sociedade e com o modo de as pessoas cooperarem na organização da produção. A crença neoliberal de que, no capitalismo, só o mercado interessa é, portanto, um parente próximo da concepção marxista de que, para o socialismo, o que importa é a planificação: nenhum deles tem tempo para disquisições políticas legítimas. Temos muito em comum com os neoliberais, na realidade, virtualmente tudo - excepto o essencial! [Frederic Jameson, Postmodernism: Or, the Cultural Logic of Late Capitalism]

Para lá do carácter provocador ou chocante da afirmação de Jameson, há uma coisa que permanece um facto: tanto o liberalismo como o marxismo visam a destruição do político. Aquilo que marca a modernidade e a própria pós-modernidade é a aversão à dimensão política da existência humana e a proposição, explicitamente ou não, de utopias onde o Estado é dissolvido. Não esqueçamos o seguinte: toda a violência que o Estado exerceu, no chamado socialismo real, tinha por fim atingir a sociedade sem classes, onde o Estado desapareceria. Também a retórica liberal do Estado mínimo almeja a desarticulação do Estado e sonha com um paraíso onde só existam consumidores e relações contratuais livres entre consumidores. Liberais, socialistas e comunistas, de formas diferentes, todos eles visam a anarquia, a supressão de uma ordem onde as comunidades se organizam segundo estruturas políticas.

Contrariamente, porém, ao que pensa Jameson, aquilo que separa os neoliberais dos marxistas não é o essencial, mas o acessório, a organização da produção e da distribuição de bens. No essencial, estão unidos, pois a essência do homem é impensável sem a dimensão política. Esta não é uma excrescência, mas a condição de possibilidade da existência e persistência do humano. O que descobrimos assim é um longo projecto de desarticulação do homem, um projecto emergente na modernidade (talvez a visão mecanicista do homem que vai de Descartes a de La Mettrie seja um símbolo percursor), mas que a pós-modernidade vem deliberadamente acentuar. Mais interessante do que o debate sobre a ruptura entre moderno e pós-moderno, debate centrado, por exemplo, na diferenciação e autonomia das esferas (religião, política, arte, ciência) inerente à modernidade e na actual des-diferenciação e hibridação pós-moderna, é a reflexão sobre o pós-moderno como momento de intensificação paroxística de tendências dissolventes libertadas com a modernidade. Tendências essas que têm dois pólos particularmente significativos no marxismo e no liberalismo, independentemente das múltiplas formas que ambos vão tomando. Trata-se sempre de abater o velho leviatã, essa terrível e monstruosa metáfora usada por Thomas Hobbes para designar o Estado. (averomundo, 2009/08/19)