segunda-feira, 30 de março de 2015

Uma esperança deceptiva

Salvador Dali - Araña de noche... Esperanza (1940)

Há qualquer coisa de doentio na crença de que a política pode trazer alguma benfeitoria à vida dos indivíduos. Isto não significa que todos os regimes políticos sejam iguais. A democracia é menos intolerável do que um regime ditatorial. Há governos menos ofensivos para os cidadãos do que outros. Refiro-me contudo a uma crença salvífica fundada no esforço colectivo em direcção a uma sociedade melhor e mais justa. Da experiência que há do mundo, nada suporta essa crença. Quando ela foi perseguida por via revolucionária, o resultado foi uma desolação sem fim, onde os indivíduos foram esmagados e as liberdades aniquiladas impiedosamente. Hoje em dia, continua viva a esperança de que, pela via democrática, se encontre caminho para uma tal sociedade. Este desejo de salvação parece irresistível. Um pequeno sinal (por exemplo, a vitória do Syriza na Grécia) é visto como prova irrefutável, mesmo que ninguém consiga perceber o que vai acontecer, e as contumazes evidências em contrário (por exemplo, a vitória do PSD na Madeira, ou o retorno em força de uma pessoa como Sarkozy em França) nunca chegam para matar essa esperança escatológica.

É possível que estejamos perante uma daquelas aporias em que a razão humana é fértil. Por um lado, ela tem o poder de gerar o descontentamento no coração de muitos homens, mostrando-lhe a natureza injusta da sua situação e, assim, fazer nascer, como contraponto, a esperança de libertação. Por outro, é demasiado frágil - tanto do ponto de vista teórico como prático - para encontrar e fazer triunfar um caminho que corresponda à esperança que os homens sempre depositam - mesmo que não haja razões empíricas para tal - nos poderes que a acção política traz consigo. Se nós combinarmos a crença salvífica nas possibilidades da acção política e a aporia que reside nela, somos conduzidos à compreensão do motivo pelo qual a decepção se segue a toda a esperança política: a fragilidade da razão torna impotente a expectativa que ela própria cria. Isto, por outro lado, diz duas coisas que a razão se recusa a aceitar: em primeiro lugar, que o mundo social, tomado na sua globalidade, não é o lugar onde a justiça se possa realizar; em segundo lugar, a acção política não visa, na sua natureza mais funda, realizar a esperança salvífica que os homens depositam nela. Sempre que a esperança se move no terreno do político, o mais provável é que ela esteja condenada a ser uma esperança deceptiva.