quarta-feira, 4 de março de 2015

Uma história portuguesa

Luis Gordillo - Doble autorretrato de mi padre (1992)

Esta é a História de uma unidade construída pelo poder político através dos séculos. Por isso, a narrativa teria de ser estribada pela História política, o que não significa que tivesse de ser uma simples crónica de actos dos titulares da soberania - tentámos que não fosse. O grande problema deste género de História é pressupor, como agente, uma entidade que é o produto e não a causa: a nação, a identidade nacional. Em Portugal, com as suas velhas fronteiras na Europa e a sua actual uniformidade linguística e antiga unanimidade religiosa, é fácil presumir a existência de uma comunhão precoce e imaginá-la como a manifestação de uma vontade e uma maneira de ser homogéneas e preexistentes à História. [Rui Ramos, Bernardo Vasconcelos e Sousa, Nuno Gonçalo Monteiro (2009). História de Portugal. Lisboa: A Esfera dos Livros, pp. III-IV]

O que a citação nos mostra é que Portugal não é o resultado de uma comunidade com identidade própria que se organiza enquanto Estado, mas o contrário. A nação e a identidade nacional são o produto de uma acção persistente das elites políticas. São elas que inventaram uma nacionalidade para poderem ter um Estado. Em momento algum nos deveríamos esquecer deste facto. Ele é o fundamento das ínvias relações que dizemos existir entre os portugueses e o Estado. Não foram os portugueses que produziram as instituições políticas, foram estas que produziram os portugueses. Daí, o carácter paternal com que o poder sempre olha os cidadãos, e a natureza filial, uma vezes temerosa e outras irresponsável, como os cidadão se comportam perante o seu criador.

Esta é a questão essencial do nosso carácter. Não é a inveja nem o saudosismo. O traço essencial dos portugueses é a menoridade perante um pai omnipresente, um pai que é visto como origem de todos os bens e, acima de tudo, do bem principal, a existência. Eis por que não há em Portugal correntes verdadeiramente liberais, exceptuando uns pândegos semi-distraídos ou semi-analfabetos.

O drama do presente, aquele que é representado pelos partidos e pelo Presidente, nasce aqui. Do PS ao CDS, passando pelo PSD e por Cavaco, todos acham necessário diminuir o Estado, pintar a vida política e económica de tons mais liberais, todos desejam mais iniciativa e gente mais empreendedora. O problema, que o analfabetismo generalizado das elites políticas não lhes permite compreender, é que essa não é a nossa tradição. O Estado ao criar os portugueses não os criou para serem livres do Estado, mas para estarem submetidos a ele. Para tal, educou-os sistematicamente na e para a dependência. Como é que um povo criado durante quase 900 anos para ser dependente, haveria de se tornar, de um momento para o outro, num conjunto feroz de empreendedores? Contra-argumentarão, e as descobertas não mostram a nossa capacidade empreendedora? Não, mostram a visão política e a capacidade de acção da elite política da altura.

Se as elites políticas querem um povo liberal e pleno de iniciativa, então terão de o criar de forma persistente e sem concessões, coisa que não está no espírito do tempo, nem é apanágio da lógica de quem ocupa o poder político. O drama a que assistimos nasce aqui, mas na verdade não é um drama, mas uma comédia de enganos. Só um pai severo poderia educar os filhos na feroz disciplina da liberdade, mas o pai não quer já ser severo – julga-se liberal – e deseja, a cada segundo, que os filhos façam aquilo que ele quer. (averomundo, 2010/01/04)