quinta-feira, 16 de abril de 2015

Cultura e civilização

Jordi Teixidor - Blanco (1996)

Aliás, a palavra cultura deixa na indeterminação qual a coisa que se deve cultivar (o sangue e a terra ou o espírito), enquanto o termo civilização designa imediatamente o processo que visa a fazer do homem um cidadão e não um escravo, um homem das cidades e não um rústico, um amante da paz e não da guerra, um ser civilizado e não um vadio. Uma comunidade tribal pode muito bem ter uma cultura, isto é, produzir hinos, cânticos, ornamentos para o seu vestuário e para as suas armas, olaria, danças, e fruir de tudo isso. Não poderá, todavia, ser civilizada. Interrogo-me se o facto do homem ocidental ter perdido muito do seu orgulho anterior, o orgulho tranquilo e apropriado de ser civilizado, não é um fundamento da actual ausência de resistência ao niilismo. (Leo Strauss, Sur le nihilisme allemand)

A conferência Sur le nihilisme allemand foi pronunciada em 1941. Strauss encontrava-se já nos EUA e assistia de longe ao domínio do nazismo sobre a sua pátria. A conferência é uma análise do niilismo alemão que de certa forma está na origem do fenómeno nazi. O que me interessa, porém, sublinhar é a velha distinção entre cultura e civilização e perguntar se, nas actuais sociedades, não estamos a assistir a uma regressão da civilização em detrimento da cultura. O multiculturalismo tem sido usado como arma de arremesso para fazer recuar os processos civilizacionais, entendidos estes à luz das palavras de Leo Strauss: tornar o homem num cidadão e não num escravo.

Perceber isso, por seu turno, exige interrogar a conexão entre as sociedades liberais e o niilismo, o que implica ainda uma outra interrogação: o que torna o conceito de cidadão, nas sociedades actuais, tão frágil e permeável ao não civilizado, ao não cívico? Será o seu carácter, nas sociedades modernas, puramente formal? Será a sua conexão com uma organização política, o Estado-Nação, que se encontra sob fogo de estruturas políticas infra-estaduais (as regiões e os municípios) e supra-estaduais (a União Europeia, por exemplo)? Será a própria natureza ontológica do cidadão, o que implica a investigação daquilo que faz com que um cidadão seja um cidadão, isto é, a sua essência? Seja qual for a questão que se coloque como determinante daquilo que dá que pensar, o texto de Strauss abre para uma reflexão sobre a conexão entre cidadania e niilismo, desviando este último conceito da área ética e da filosofia da cultura, para o introduzir na reflexão sobre o político. (averomundo, 30/06/2009)