segunda-feira, 27 de abril de 2015

O combate feroz

Emil Hansen - Old King

A animosidade com que os liberais combatem as organizações sindicais - veja-se o coro de indignados sempre que há uma greve - e o ardor com que lutam pela completa privatização de todos os sectores da vida social são elementos estruturantes de uma visão do homem e da sociedade que emergiu com a modernidade e ganhou consciência com o Iluminismo. Contrariamente ao que se pensa, o grande inimigo dos liberais não é, na verdade, o socialismo mas a cosmovisão medieval. Esta, por injusta que fosse com as suas divisões quase estanques, assinalava a cada ser humano um lugar na sociedade e a função do Rei - isto é, da ordem política - era manter um equilíbrio social para que todos encontrassem um lugar. Esta ordem política, fundada na divisão de castas e no usufruto de privilégios, era também uma ordem de protecção, um efectivo Estado social.

O socialismo e o comunismo, bem como as organizações sindicais e as ordens corporativas representam, ao nível ideológico, a nostalgia de velho mundo claro e ordenado, e o que restou, ao nível das organizações, desse mesmo mundo. O liberalismo pretende libertar completamente o indivíduo de qualquer teia de solidariedade transindividual considerando-o apenas como um ser que persegue racionalmente o seu próprio bem. Os laços com os outros indivíduos devem apenas resultar dos contratos que eles estabelecem entre si e não de qualquer malha social e comunitária anterior e protectora do indivíduos. Qualquer laço não contratual é sentido como um retorno ao proteccionismo medieval e, por isso, é sistematicamente perseguido e, assim que possível, destruído. O liberalismo, é preciso não o esquecer, não nasceu do conflito com o comunismo ou o socialismo mas do feroz combate contra a velha ordem proveniente da Idade Média. O resultado de tudo isto, contudo, parece ser o da liquidação do homem tal como o conhecemos, a instauração de uma era pós-humana.