terça-feira, 14 de abril de 2015

O dever é o dever

Giorgio de Chirico - El gran autómata (1925)

Há dias em que percebo melhor do que noutros a moral kantiana. Dias como os de hoje, em que estive a dar aulas das 9:25 às 18:15, só com uma hora de intervalo para almoço. Chega-se ao fim e está-se vazio. Este vazio transborda e inunda a relação com aquilo que fazemos. Depois de todas estas horas, tudo aquilo parece inútil e infantil. Tudo parece destituído de sentido, como se o decurso do quotidiano, preenchido com as suas múltiplas tarefas, escondesse sob o seu manto um enorme buraco negro, que suga as energias, que destrói o espírito, que aniquila a pessoa. Perguntas insidiosas surgem ao espírito. Para quê fazer tudo isto? Por que motivo se há-de levar a sério todas estas tarefas e rotinas? Por que razão devo ocultar a funda descrença na utilidade da acção sob o véu da convicção? E quando todas as razões, mesmo as mais utilitárias, desaparecem, Kant chega com a sua voz salvífica: porque esse é o teu dever.

Talvez a doutrina kantiana do dever seja uma estratégia para que nós façamos aquilo cujo sentido se erodiu ou, pior do que isso, surge à nossa consciência como um contra-senso. Recordo aqui o zelo germânico com que a Alemanha hitleriana liquidou judeus, ciganos, comunistas, estropiados, deficientes mentais. Muitos daqueles homens, estou convencido, achavam os seus actos repugnantes e sentiam, dentro de si, o pulsar da rejeição. No entanto, aquele era o seu dever, um dever tão forte que os levava a contrariar as suas inclinações humanitárias, o seu horror ao sangue e ao sofrimento. Sim, o dever pelo amor ao dever – essa terrível herança do professor de Konigsberg – é aquilo que, quando o vazio nos invade ou a consciência se revolta, sustenta a nossa acção. Ela perdeu o sentido, mas é objectivamente o nosso dever. O dever salva-me do desalento como salvou muitas consciências que, ao cometer atrocidades, o faziam apenas por amor ao dever. O problema é que esse amor condenou milhões à morte. E é nestes dias em que melhor entendo Kant, que mais perturbado fico. Há no mundo uma inexorabilidade que se nos impõe e que toma, dentro de nós, a forma imperativa do dever, a qual tanto me pode mandar ensinar alunos como matar outras pessoas.