quinta-feira, 23 de abril de 2015

O lugar onde não se tem lugar

Leonard Misonne - Winter (1935)

Os vinte e cinco homens acolheram a boa nova em silêncio; nem um só se benzeu, nenhum agradeceu, e ficaram todos ali, com um ar sério e como que entristecidos pelo pensamento de que tudo, neste mundo, até o sofrimento, tem um fim. (Anton Tchékhov, A Ilha de Sacalina)

É corrente a interrogação sobre os motivos que levam as pessoas a preferirem manter uma situação dolorosa no lugar de lhe pôr fim. Por exemplo, por que motivo as pessoas prolongam casamentos que se tornaram uma chaga viva ou, num outro âmbito, que razões levam os eleitorados a escolherem os partidos que, sistematicamente, lhes infligem dor e engano? O senso comum, muitas vezes travestido de psicologia ou de sociologia, abunda em explicações sobre estes comportamentos, centradas no medo da mudança ou no temor das consequências e dos actos de vingança. Tudo isto fará sentido. No entanto, há uma outra motivação, talvez mais funda e mais pertinente.

Pôr fim a uma situação, por dolorosa que ela seja pessoal ou socialmente, é confrontarmo-nos com o fim de tudo e, por reflexo especular, sermos obrigados a considerar a nossa própria finitude. A mudança não é uma ameaça por ser revolucionária ou trazer o desconhecido. Ela é sentida como uma ameaça porque nos traz o futuro. E o futuro, ao contrário do que os amantes do progresso propagandeiam, não é o tempo da felicidade nem da realização da esperança num qualquer paraíso nascido de uma utopia realizada. O futuro, para cada um de nós, é apenas e só uma única coisa: o tempo da nossa morte, a concretização da nossa finitude. No mais fundo do homem, por muito radioso que se lhe pinte o amanhã, ele sabe que esse amanhã é o lugar em que ele já não terá lugar.