domingo, 19 de abril de 2015

Os canhões e a manteiga

Jackson Pollock - War (1947)

A Europa continua a preferir a manteiga aos canhões. No entanto, já há indícios de que as coisas estão a mudar. Citando agora de cor, há países nórdicos, designadamente a Suécia e a Noruega, que estão a reinvestir fortemente na Defesa. Só quem não quer é que não percebe o que se está a passar. O que se está a passar no Mediterrâneo… (Almirante Melo Gomes, entrevista ao Público)

Há uma frase terrível na entrevista, ao Público, do Almirante Melo Gomes: A Europa continua a preferir a manteiga aos canhões. Esta frase dita em tom negativo – um tom que poderá pôr em pé os cabelos dos pacifistas – mostra como as questões políticas fundamentais são entendidas nesta Europa. Os problemas de mercearia são muito mais importantes do que as questões políticas, nomeadamente as de segurança. Habituados a um pacifismo reactivo, derivado da memória de duas guerras mundiais iniciadas na e pela Europa, os europeus parecem sonâmbulos perante o alastrar do fogo nas margens da sua zona de conforto, digamos assim. Na Ucrânia e no Mediterrâneo crescem todos os dias as ameaças à segurança e ao modo de vida que tem sido o nosso. Infelizmente, a Europa – pois o mundo é o que é – terá de se preocupar mais com canhões. Muitas vezes preocupar-se com canhões impede que  chegue a hora em que estes têm de ser usados. Por outro lado, as próprias questões de mercearia têm de ser tratadas de outra maneira, para que não seja a mercearia a abrir brechas Europa dentro, pelas quais os inimigos possam entrar e instalar-se, ou pelo menos trazer conflito e sofrimento. Dito de outra maneira: a política vem em primeiro lugar. Depois, vem a economia, e o fim desta é servir o bem das comunidades, gerando um espírito comum, para que todos achem que são parte integrante e têm o dever de a defender. A ideia liberal de que o Estado existe para promover o lucro privado tem de ser, no mínimo, matizada. Isto se quisermos obstar a uma situação muito desagradável. A Europa precisa de canhões e de reaprender a distribuir equitativamente a manteiga.