segunda-feira, 4 de maio de 2015

O argumento e a regra

Giorgio de Chirico - The Evil Genius of a King (1914-15)

Enquanto universitário, com efeito, quando apresento um argumento numa discussão, espero que o que está diante de mim apresente um contra-argumento. Ora o que nos opuseram foram regras. (Euclides Tsakalotos, coordenador da equipa de negociadores gregos com as instituições europeias)

O governo grego tem todas as hipóteses para falhar os seus objectivos. Há nele uma espécie de candura que não prenuncia nada de bom. Veja-se o que diz o coordenador da equipa de negociadores gregos, o universitário Euclides Tsakalotos. Lamenta que, nas discussões com as instituições europeias, quando apresenta um argumento a favor das suas posições o outro lado não contra-argumente e contraponha apenas com as regras. Tsakalotos, Varoufakis e Tsipras deveriam saber uma coisa. O que está em jogo nas negociações não é a verdade mas o poder.

Argumentar e contra-argumentar faz parte do jogo que procura chegar à verdade. A regra fala-nos do poder. Quem tem poder impõe regras não se preocupa com a verdade. A verdade não faz parte da política, a não ser de forma secundária e quando ela permite reforçar o poder. Os argumentos dos gregos são sensatos e razoáveis. Estão escorados em análises sólidas da situação e as perspectivas das instituições europeias já foram desmentidas pelos factos. Pode-se afirmar que os argumentos de Tsakalotos são mais verdadeiros – ou mais verosímeis – que os das instituições europeias. Mas a verdade é aqui irrelevante. O que conta é a vontade de quem tem o poder de impor o seu ponto de vista.

Se o governo do Syriza quer aplicar o seu programa terá de perceber que qualquer argumentação razoável é inútil. Só há uma linguagem que poderá demover as instituições europeias, a linguagem do poder. Se a Grécia tiver capacidade para pôr em causa, de alguma maneira, o poder europeu, então ela poderá abrir caminho para ver as suas pretensões reconhecidas. Caso contrário, a regra falará sempre mais alto que o argumento, pois a regra não é outra coisa senão o poder codificado. Fora disto é não saber qual é a natureza da política. Ninguém quer saber da verdade e não há maior ingenuidade do que não perceber isso.