sábado, 16 de maio de 2015

Os jovens e a política

Eric Fischl - Bad Boy (1981)

Um estudo encomendado pela Presidência da República torna claro que os jovens não se interessam nem pelos partidos políticos nem pela política. O grau de envolvimento é diminuto e parece não parar de cair. As causas serão múltiplas e merecedores de reflexão. Gostava, no entanto, de sublinhar um aspecto que, por certo, não será tido em consideração nas reflexões que se fazem sobre o fenómeno. Trata-se da percepção ambígua que as novas gerações possuem do fenómeno político. Para a perceber não será inútil estabelecer uma comparação com a jovem geração muito politizada de que fiz parte.

A minha geração, e refiro-me aos que começaram a interessar-se pelas questões políticas ainda antes da queda da ditadura, tinha uma grande pressão para se interessar pela política e estava envolvida por um manto romântico do fenómeno político. O problema da guerra colonial e a ausência de liberdades exerciam enorme pressão para que as novas gerações se interessassem pela coisa pública. Por outro lado, a política era considerada de um ponto de vista moral. Não era tanto a questão do poder que estava em jogo para nós. Era o problema da maldade ou da bondade morais com que o poder era ou poderia ser exercido. Este romantismo moral não passava, claro, de uma ingenuidade fundada na ignorância própria da idade e na falta de leituras e de reflexão.

As actuais gerações não possuem a drástica pressão da ausência de liberdade e da existência de uma guerra longínqua onde teriam de ir combater. Por outro lado, não sofrem da ingenuidade romântica que afectou a minha geração. Apesar de ignorantes e sem leituras, tal como a minha, estas gerações têm um saber prático, um saber não reflectido dado pela prática política que se desenrola aos seus olhos, sobre a separação entre a política e a moral. Fazer política para a minha geração era bater-se por um bem moral. Fazer política para as actuais gerações de jovens significa lutar pelo poder puro e simples e pelas vantagens pessoais que lhe estão associadas. 

Numa fase da vida onde os valores morais ainda incendeiam o coração, é natural que a percepção ingénua da separação entre moral e política conduza os jovens actuais a uma longa virgindade política. A perda dessa virgindade, o fim da longa abstinência política que a idade adulta acaba por impor, pode significar, contudo, o nascimento de uma consciência social cínica. O interesse pela política passa a ser uma questão de cálculo racional dos interesses pessoais. E este parece-me ser o principal problema do ponto de vista de uma cidadania reflexiva e não ingénua. Quando as novas gerações se interessam pela política já não são tão jovens assim e o que as leva a acção está muito longe de ser o bem moral da comunidade. Entram para a política pela porta da realpolitik.