quinta-feira, 25 de junho de 2015

Dentro do labirinto

Pablo Picasso - El despojo de Minotauro en traje de Arlequín (1936)

A história tem coisas cruéis. Olhemos para desolação que acomete a Grécia, a forma como o seu governo é tratado, a arrogância dos credores, a falta de decoro dos jornalistas a soldo da visão dominante do mundo. A crueldade maior, porém, reside na memória. Foram os gregos que inventaram a Cidade-Estado. Esta tinha duas características: a autonomia e a autarquia. Segundo a primeira, a cidade era independente. Devido à segunda, era auto-suficiente economicamente. Talvez, por instantes, estes conceitos perpassem no pensamento de Tsipras ou de Varoufakis e uma estranha nostalgia os anime no combate contra o Minotauro europeu. A verdade, porém, é que devido às anteriores governações gregas - isto é, aos agentes do Minotauro - a Grécia embarcou no canto da sereia da interdependência e, quando acordou do sonho, a auto-suficiência, o velho ideal de autarquia, tinha desaparecido. O pesadelo não ficou por aí. Agora, os gregos estão a aprender uma outra coisa. Estão a aprender que também perderam a autonomia. Escolham eles o que escolherem, o monstro exige o pesado tributo. O que se coloca a Tsipras e a Varoufakis é se eles têm a coragem de Teseu e o fio de Ariadne, pois dentro do labirinto já eles estão.