segunda-feira, 29 de junho de 2015

Krisis e proairesis

William Blake - O Minotauro

Um texto publico no meu antigo blogue averomundo, em Janeiro de 2009. Parece escrito para hoje.

Tudo o que se está a passar revela uma coisa que, tendencialmente, esquecemos: existir, viver, estar no mundo é uma coisa problemática e a vida, por mais que criemos direitos para a proteger, está constantemente à beira da crise. Se os direitos, neles incluídos os direitos socais, fazem sentido dentro do jogo da linguagem social, já não fazem qualquer sentido dentro do jogo da linguagem da natureza. Na natureza, sobreviveremos se nos conseguirmos adaptar. O problema é que esquecemos muitas vezes que as sociedades humanas são construções fundadas na natureza e que, por mais eficiência que se consiga na vida social, a natureza, com os seus humores variáveis, acaba sempre por irromper, mostrando a fragilidade da nossa existência. Seria bom, assim, compreender que as situações críticas não são uma especificidade dos sistemas capitalistas, mas do mero facto do homem vir ao mundo. O Iluminismo, tanto o de cariz liberal como o de feição marxiana, espalhou a ilusão de ser possível construir sociedades imunes às crises. Não podemos, pelo simples facto da nossa constituição ontológica o não permitir: a crise é inerente à natureza do homem e de tudo o que ele constrói.

Isso não significa, porém, que uma conduta descuidada e desregulada seja a resposta ao existir crítico do homem. As sociedades humanas não são uma espécie de duplicação de uma natureza anterior ao estado social, mas formas dos homens regularem as suas relações com a natureza, com os outros homens e com o mundo sobrenatural (seja este real ou puramente imaginário). Se a crise se inscreve na estrutura ontológica do homem, a verdade é que o jogo cooperativo que é a sociedade visa diminuir ao máximo os perigos que representa uma natureza deixada sem vigilância. Quando se imagina o mercado, um produto social, como sendo regulado por leis "naturais", está-se a esquecer a essência social e reguladora de todas as instâncias sociais, entre elas o mercado. Uma das consequências pode ser, então, a seguinte: o mercado, em vez de produzir um papel regulador na distribuição dos bens que são necessários aos membros da espécie, pode arrastar muitos desses membros para situações críticas, porventura inultrapassáveis.

Inerente à essência do homem é, ao mesmo tempo, a assunção da importância do risco e da regulação. No pensamento grego, à krisis responde a proairesis, isto é, a escolha deliberada. É na dimensão da deliberação que se encontra a resposta para a prevenção e solução das situações críticas. Deliberar implicar o uso da razão na ponderação, na busca do equilíbrio e da justa medida. Quando a razão se afasta da justa medida e se torna um mero instrumento de cálculo da eficiência, os actos tornam-se desrazoáveis e a capacidade dos homens fazerem frente às situações críticas, inerentes à existência, torna-se cada vez mais frágil. A crise financeira e o triste espectáculo a que se assiste deve-se, em última análise, a decisões de carácter filosófico que desvalorizam, tanto nas decisões individuais como nas institucionais, o papel da razão enquanto faculdade de deliberar em conformidade com o equilíbrio e a justa medida. O que mostra uma característica nem sempre muito clara da própria razão: a sua vulnerabilidade. (averomundo, 2009/01/26)