domingo, 5 de julho de 2015

A colecção Cow-Boy


Há um momento em que se dá, em mim, a transição da leitura de histórias aos quadradinhos (livros de cow-boys) para histórias em texto corrido. Mais do que as aventuras da Enid Blyton, a colecção Cow-boy, que apareceu em 1961, ainda antes de eu aprender a ler, fez essa mediação entre a literatura de raiz popular e as leituras eruditas. A colecção  era composta por livrinhos com 64 páginas, páginas pequenas com a dimensão de 8,5 x 12,5 cm, e 6 ilustrações. Li dezenas ou centenas, nem sei bem, de historietas destas, não apenas da colecção referida, como de outras que apareceram a partir do sucesso desta. Talvez um dia destes fale aqui dessas colecções.

Estes livros da Cow-Boy continham histórias do oeste americano, pequenas epopeias marcadas por um problema fundamental: o da justiça. Havia sempre um cow-boy justiceiro, um bandido malévolo, pessoa influente, por norma, e uma rapariga que casava com o herói, quando casava, pois este poderia bem ser um solitário cavaleiro errante. Nem sempre a justiça se casava com o amor, mas constituíam-se como ideias reguladores que faziam sonhar o leitor no início da adolescência. Era um mundo simples, o das histórias e o daqueles dias em que eu as lia. Às vezes, confundimos a simplicidade com a bondade, mas não é a mesma coisa. Naqueles tempos, não havia professor que não franzisse o sobrolho se descobria um aluno a ler este tipo de literatura. Eu lia e marcaram-me antes que Eça, Camus, Kafka, Proust ou os poetas chegassem. Seja como for, eu era feliz ao ler aqueles livros e isso basta. (averomundo, 2007/08/06, texto refeito)