domingo, 26 de julho de 2015

Fúria de Bravos - justiça e decência


Aquilo que chamamos o nosso pensamento tem raízes em lugares que, muitas vezes, nem suspeitamos. É preciso um acaso ou um longo trabalho de arqueologia para percebermos como certas ideias sobre o mundo se formaram em nós. Já aqui falei de duas (a Cow-Boy e a 6 Balas) de quatro colecções da Agência Portuguesa de Revistas que me ajudaram a passar muitas tardes no calor insuportável de Torres Novas. Hoje faço referência à Fúria de Bravos. Como as anteriores, esta colecção era composta por pequenos livros (8,5 cm x 12,5 cm) de 64 páginas, com texto corrido e apenas seis gravuras. Não se distinguia, tanto quanto me lembro, em nada das anteriores. Esta diferenciação de colecções não provinha de uma qualquer especialização temática. Respondia antes a uma estratégia editorial e de ocupação do mercado por parte da editora.

Se me perguntar onde se fundam, na minha visão do do mundo, o meu interesse pela justiça (tanto a retributiva como a distributiva) e uma desconfiança, por vezes radical, perante os fortes e os poderosos deste mundo, posso invocar, sem erro, a educação católica recebida por via materna ou o respeito pelos desafortunados do mundo nascido do agnosticismo - ou ateísmo - paterno. Contudo, estas pequenas colecções, aparentemente tão inócuas do ponto de vista social e político, não deixaram de se impregnar no meu espírito ainda não saído da infância. Invariavelmente, o herói confrontava-se com alguém poderoso que, aproveitando a fragilidade da lei, submetia uma comunidade aos seus interesses privados. Mais do que a retórica marxista da minha primeira juventude, é esta visão das aventuras do oeste que inflamou o meu espírito e o fez pender, decisivamente, para o lado dos fracos e dos derrotados da vida, daqueles que anseiam por uma justiça que, como sei hoje em dia, não é a deste mundo. A fúria dos bravos, a que vinha até mim nessas pequenas colecções, não era mais do que o desejo ardente de um mundo justo e decente.