sexta-feira, 10 de julho de 2015

No reino da estupidez

A minha crónica quinzenal no Jornal Torrejano.

Não sei qual vai ser o destino da Grécia e da própria União Europeia. Escrevo na segunda-feira. Quando o Jornal Torrejano sair já muita água terá passado por baixo das pontes. As leituras do referendo, com algumas excepções, são o resultado do posicionamento ideológico daquele que as faz. Pessoas de direita tendem a amaldiçoar o Syriza, as de esquerda vêem no acontecimento uma extraordinária vitória. Eu não sei, repito, o que o voto dos gregos vai trazer a todos nós. Quero, porém, falar sobre a estupidez, pois muito do que se está a viver é efeito de uma estupidez persistente, contumaz.

A estupidez começa com o facto de a intransigência da União Europeia ter feito cair quatro governos gregos (de centro direita (2), de centro esquerda e de tecnocratas) antes de chegar o Syriza. Foi a União Europeia que, não compreendendo o verdadeiro problema grego (a corrupção e a inexistência de um Estado central devidamente organizado e funcional), alimentou o Syriza, e o fez passar de um pequeno partido de 4% ou 5% de votos para o partido maioritário na Grécia. A estupidez continuou quando, em vez de aproveitar alguém não comprometido com a corrupção, fez tudo para derrubar mais um governo. Um desporto de estúpidos.

A estupidez continua com o desprezo da situação geopolítica da Grécia. Os credores, em todo este processo, visaram humilhar o governo e os governantes gregos, esquecendo que se está numa zona muito difícil na qual confluem os maus ares dos Balcãs – com a Turquia tão perto –, do Mediterrâneo e da Ucrânia. São os credores (de uma dívida cuja natureza está muito mal esclarecida) que, com a sua intransigência, estão a empurrar a Grécia para fora da sua natural aliança ocidental. Ainda não percebi se a senhora Merkel quer na Grécia uma guerra civil ou que ela se torne aliada da Rússia e da China.

O que mais me marcou, todavia, foi o ambiente na Praça Syntagma, na noite em que o Não venceu o referendo. Era um ambiente que parecia o de uma revolução, o do fim de uma ditadura. Marcou-me não por aquilo que o leitor pode estar a pensar. Marcou-me, mais uma vez, pela estupidez das políticas europeias. Como é possível que a Europa das liberdades, a Europa que apadrinhou a libertação dos países do sul das respectivas ditaduras, que incentivou os do Leste a libertarem-se, que comemorou esfusiante a Queda do Muro de Berlim, como é possível que essa Europa se tenha tornado, aos olhos de muitos europeus, o símbolo da opressão. Como é que a estupidez política, o fanatismo provocado pela ideologia e a subserviência ao dinheiro conseguiram transformar o espaço do sonho da liberdade no pesadelo de um campo de concentração?