quinta-feira, 9 de julho de 2015

Escrever na terra

Pieter Brueghel el Viejo - Jesus Cristo e a mulher adúltera (1565)

No episódio biblíco da mulher adúltera (Jo 8, 1-11) há, para além da não condenação da mulher, uma outra coisa que me deixa perplexo e que merece meditação. Quando os Escribas e os Fariseus trouxeram a mulher apanhada em flagrante delito, disseram a Cristo que a lei mosaica mandava apedrejar tais mulheres e, de seguida, perguntaram-lhe: Tu pois o que dizes? A resposta de Cristo foi inclinar-se e escrever na terra. Só perante a insistência é que, endireitando-se, lhes dá uma resposta oral: o que estiver sem pecado, que seja o primeiro a atirar uma pedra. Depois, inclinou-se e voltou a escrever na terra. O que causa perplexidade é este escrever na terra. Como interpretar tal acto?

Esta escrita de Cristo só se pode compreender na relação com as personagens dos Escribas e dos Fariseus. Os primeiros eram doutores da lei mosaica, os segundos, defensores de uma aplicação estrita dessa mesma lei. Uma primeira leitura da escrita de Cristo é aquela que é mais corrente: a lei mosaica deveria ser substituída por uma nova lei, a que estivesse fundada no perdão. Há uma confrontação clara entre duas leis, dois discursos e duas regras morais para a acção. Mas aquilo que é problemático, na minha óptica, é o facto do discurso ser agora impresso na terra, no pó e não na pedra (símbolo de eternidade).

Isto abre uma outra perspectiva de confronto, porventura mais interessante: à lei eterna dada por Deus a Moisés contrapõem-se, agora e por iniciativa de Cristo, o filho de Deus, uma lei temporal, evanescente, mutável e adaptável às situações. A intemporalidade e eternidade das coisas terrenas desaparece, como desaparecem as palavras que escrevemos no pó da terra. A lei, inclusive a lei moral (Cristo não parece ser um kantiano), torna-se, pelo acto de Cristo, puramente histórica, algo que se escreve, mas que o tempo apaga. As leis que regem os homens não são eternas, mas resultam das circunstâncias históricas e do grau de consciência dominante em cada época (quem estiver livre de pecado, que atire a primeira pedra). Por este acto, Cristo rouba a humanidade à ciclicidade mítica, reflexo da imutabilidade e perenidade do divino, e fá-la entrar na linearidade histórica. É disto que nós, ocidentais, somos herdeiros: Cristo trouxe-nos a história e as suas metamorfoses. (averomundo, 2009/01/25)