quinta-feira, 30 de julho de 2015

Progressistas e reaccionários

Paul Klee - Angelus Novus (1920)

Há um quadro de Klee que se chama Angelus Novus. Representa um anjo que parece querer afastar-se de algo que ele encara fixamente. Seus olhos estão escancarados, sua boca dilatada, suas asas abertas. O anjo da história deve ter esse aspecto. Seu rosto está dirigido para o passado. Onde nós vemos uma cadeia de acontecimentos, ele vê uma catástrofe única, que acumula incansavelmente ruína sobre ruína e as dispersa a nossos pés. Ele gostaria de deter-se para acordar os mortos e juntar os fragmentos. Mas uma tempestade sopra do paraíso e prende-se em suas asas com tanta força que ele não pode mais fechá-las. Essa tempestade o impele irresistivelmente para o futuro, ao qual ele vira as costas, enquanto o amontoado de ruínas cresce até o céu. Essa tempestade é o que chamamos progresso. (Walter Benjamin, Teses sobre o conceito de história)

É verosímil que Deus tenha amado os homens acima dos próprios anjos. Só esse amor explica tê-los poupado à visão angélica da história, dando-lhes assim o fervor de uma ilusão que os guia na vida. Tivéssemos nós a visão do anjo e saberíamos - não por mera reminiscência ou reflexão, mas por funda intuição - que aquilo a que chamamos progresso - seja qual for a tonalidade que lhe possamos dar - não é mais do que um amontoado de ruínas e uma infindável carnificina, da qual cada um de nós será também vítima, quando chegar a hora aprazada. Embora o anjo possa ser impotente para realizar o desejo de parar o progresso, e assim acordar os mortos e refazer o que ruiu, a verdade é que ele  é dotado de força suficiente para suportar tudo o que o olhar lhe revela.

Os homens, todavia, são demasiado frágeis e, por isso, Deus, do passado, apenas lhes dá a memória frágil e alguns traços dispersos, para que a sua visão se concentre na promessa da novidade e da glória do que há-de vir. A suprema arte divina joga-se toda neste tipo de cuidados paliativos, pelos quais nos faz ver como a suprema bondade da vida, o progresso, aquilo que não é mais do que a acção do negativo, o trabalho incansável da morte. Talvez por isso toda a vida política - que não é outra coisa senão a intersecção dos sonhos e das ilusões de cada um - se resuma ao conflito entre os progressistas, amantes ferozes do progresso, aqueles que, deliberadamente, trazem a ruína e a morte, e os reaccionários, inimigos contumazes desse progresso, aqueles que possuem, ainda que de forma velada, a sensação de que todo o progresso é um exercício de ruína e morte. Dito de outra maneira, todo o conflito político é uma luta entre duas ilusões incuráveis, para as quais não está disponível qualquer solução, a não ser a de que todos seremos levados, queiramos ou não, pelo vento que sopra do paraíso.