quarta-feira, 29 de julho de 2015

Uma questão de arranjo

Salvador Dali - Pareja con las cabezas llenas de nubes (1936)

Implorou: «Elisabeth, diz qualquer coisa», e Elisabeth respondeu lentamente, como se não fossem suas as palavras que dizia: «Não somos suficientemente estranhos um ao outro nem suficientemente íntimos.» «Elisabeth, vais deixar-me?» Elisabeth respondeu com voz doce: «Não, Joachim, creio que doravante caminharemos juntos. Não estejas triste, Joachim, estou convencida de que tudo se arranjará.» (Hermann Broch, Os Sonâmbulos, vol. 1 Pasenow ou o Romantismo, p. 164)

Estamos em finais do século XIX e poderíamos dizer que o oficial Joachim von Pasenow sofre de um excesso, o excesso de romantismo. A idealização da mulher e uma visão salvífica do casamento conduzem Joachim, na noite de núpcias, ao escrúpulo perante a natureza erótica do acontecimento e à incerteza relativa ao futuro do próprio casal. O mundo tinha, porém, mudado decididamente. O pudor de uma aristocracia culpada, tingida pelo romantismo, estava já deslocado perante o triunfo de uma visão pragmática da vida. É nas palavras de Elisabeth - em quem Joachim vê, equivocadamente, a consumação do ideal romântico de mulher - que esse outro mundo se manifesta em toda a sua crueza. Quando o oficial quer descobrir o momento de epifania do absoluto, de tal forma que implora que ela lhe diga alguma coisa, que lhe faça uma qualquer revelação, ela apenas responde com a prudência de uma razão que calcula: «não somos suficientemente estranhos um ao outro nem suficientemente íntimos». É esta suficiência - ou insuficiência - que arrebata a vida amorosa de uma dimensão absoluta e a faz entrar, pela natureza métrica do que é ou não suficiente, na relatividade onde o sexo se torna possível na pragmática da vida diária. E é através da dimensão do cálculo e da relativização do absoluto, transformados já em instinto num novo tipo de mulher, que Elisabeth pode dizer: «estou convencida de que tudo se arranjará.» O mundo tinha entrado na era em que tudo, mesmo o amor e o erotismo, era uma questão de arranjo. E fora isto, não havia qualquer outra revelação a fazer.