sábado, 29 de agosto de 2015

A Roda da Fortuna

Edward Burne Jones - A Roda da Fortuna (1883)

Abel tornou-se pastor e Caim lavrador. Passado algum tempo, Caim ofereceu frutos da terra em oblação ao Senhor. Abel, por seu lado, ofereceu dos primogénitos do seu rebanho e das gorduras dele; e o Senhor olhou com agrado para Abel e para sua oblação, mas não olhou para Caim, nem para os seus dons. Caim ficou extremamente irritado com isso, e o seu semblante tornou-se abatido. (Gen. 4:2-5)

Segundo o Público, licenciados e doutorados estão a concorrer para lugares de assistentes operacionais (a designação actual do que antigamente se denominava como contínuos, depois auxiliares de acção educativa). Interroguei-me sobre o que sentem estas pessoas perante uma desigualdade tão grande de destinos, desigualdade que se deve não ao mérito ou à falta dele, mas a uma questão de se ter nascido antes ou depois. Imagine-se, por exemplo, a situação em que professores e dirigentes escolares são licenciados e dois ou três assistentes operacionais são doutorados. O que sentirão os assistentes operacionais doutorados ou mesmo os licenciados? Ontem pensei que escreveria hoje sobre o assunto, sobre duas paixões presentes no homem e que se manifestam a partir da fortuna de cada um. Por um daqueles acasos em que a blogosfera se tornou fértil, também o José Ricardo Costa tratou do caso, numa perspectiva muito diferente da minha, no seu blogue Ponteiros Parados.

Uma das paixões mais arcaicas da humanidade é a paixão pela igualdade. Costumo comentar que as comunistas mais consistentes que conheço são as minhas netas, irmãs com 4 e 6 anos. Não se pense que elas têm uma educação nesse sentido ou que sabem o que é o comunismo. Não, pelo contrário, frequentam um colégio católico, apostólico e romano. O meu comentário deve-se ao facto de quererem sempre coisas iguais, de chegarem a desistir de alguma coisa que desejam para escolherem outra exactamente igual à da irmã. Têm – ainda têm – uma genuína paixão pela igualdade. Paul Ricoeur escreveu que entramos na problemática da justiça através da injustiça, dessa injustiça sentida, na infância, quando se recebe uma fatia de bolo menor do que a de um irmão. A exclamação isso não é justo! é a expressão genuína da paixão pela igualdade.

Aquilo que se passa ao nível dos indivíduos reproduz o vivido e sentido ao nível da espécie. Medite-se o texto do Génesis citado em epígrafe. O que abateu Caim e o levou à ira e, posteriormente, à violência homicida foi o sentimento de injustiça que nasceu nele pelo facto de Deus não ter olhado com agrado a sua oblação, ao contrário do que fizera com Abel. O sentimento de injustiçado nasce da percepção de um tratamento desigual. A narrativa do texto bíblico é a codificação de uma experiência arcaica da nossa espécie e é, ao mesmo tempo, uma eloquente expressão da paixão pela igualdade, paixão presente em todos nós. Qual é o problema que está presente no sentimento de Caim ou do irmão que recebe uma fatia menor do bolo? É o do reconhecimento. Caim não se sentiu reconhecido. O irmão que recebe a menor parte não se sente reconhecido como filho na sua plenitude. A paixão pela igualdade não deriva de nenhuma teorização abstracta nem foi invenção dos comunistas para aborrecerem os mercados. Está ligada à nossa ânsia de reconhecimento. Aqui retorno à questão: O que sentirão os assistentes operacionais doutorados ou mesmo os licenciados? Inveja? Ira? Resignação por uma ordem que os condena? Seja o que for, a paixão pela igualdade falará, nesta hora, muito alto dentro da sua consciência. A deusa Fortuna não lhes foi propícia.

A paixão pela igualdade, apesar de ser arcaica, não é a única que existe no homem. Diria mesmo que ela é passageira, que persiste enquanto alguém se sente negativamente discriminado. Uma outra paixão, nascida ainda da necessidade de reconhecimento, toma o lugar da paixão pela igualdade. É a paixão pela dominação, pela sobreposição ao outro, pela diferenciação assente na hierarquização dentro da comunidade. Não vale a pena sequer dar exemplos, basta olhar e eles estão em todo o lado. A história dos homens não é mais do que a luta entre duas paixões arcaicas, que buscam estratégias racionalizantes não apenas para se legitimarem mas para triunfarem.

Um dos equívocos – o qual faz parte de certas estratégias da paixão pela dominação – é confundir a paixão pela dominação com um amor pela liberdade. Esse equívoco conduz mesmo a opor igualdade e liberdade. A liberdade pouco tem a ver com estas duas paixões. O que nós observamos na história dos homens não é o conflito entre aqueles que tecem terríveis esquemas abstractos para impor o igualitarismo e os amantes da liberdade e da ordem espontânea do mundo. O que nós vemos é o interminável conflito entre duas paixões, que se cobrem com armaduras teóricas para melhor alcançarem os objectivos passionais, para melhor darem sequência às pulsões mais ou menos inconscientes que as alimentam. E, queiramos ou não, todos somos arrastados por esse conflito passional, mesmo que o nosso lugar – como o dos assistentes operacionais doutorados – se deva àquilo a que os romanos chamavam Fortuna e os gregos, Tykhe, pois não escolhemos a hora do nosso nascimento, não escolhemos nenhuma das nossas características, nem a inteligência, nem a coragem, nem a resiliência, nem a força de vontade.