sábado, 1 de agosto de 2015

Da fidelidade e da traição

Stanley Spencer - The Betrayal (first version) (1914)

Uma das coisas que, na vida política, mais me chama a atenção não é que os governantes governem traindo os interesses dos cidadãos. O que me impressiona é a sistemática dissonância cognitiva do cidadão comum. Pensa uma coisa e vota em quem irá executar políticas diametralmente opostas. Olhemos para o exemplo inglês (ver aqui). O apoio à gestão privada da saúde, da energia, dos correios e dos caminhos de ferro é complemente minoritária, sendo no caso da saúde quase nula, mas não é essa a inclinação governamental. 

Esta dissonância cognitiva dos eleitores mostra-nos que na formação da intenção de voto pouco contam os projectos políticos em confronto mas razões de natureza emocional, as quais roçam a consciência identitária presente no espírito de pertença  aos clubes de futebol. Tem mais peso, no momento da decisão, a fidelidade a um partido do que fidelidade ao seu próprio pensamento. Este mecanismo de fidelidade é um dos elementos mais interessantes na vida política. O eleitor debate-se com o terror da traição à sua tradição política e, por norma, vota afirmando uma fidelidade estrita. E é este medo de trair uma tradição e uma identidade que torna possível os governantes eleitos traírem, sem qualquer problema de consciência, os cidadãos. É assim que a fidelidade de uns é a oportunidade para a traição de outros.