sexta-feira, 7 de agosto de 2015

O habitual


Entrámos em período de completo delírio. Faz parte da nossa tradição política em tempo pré-eleitoral. O fogo de artifício e os jogos florais a que as várias partes se entregam tendem a escamotear a dura realidade em que se vive. Temos o problema do défice que, com o actual governo e apesar de uma política drástica de cortes salariais e de aumento de impostos, cresceu cerca de 35% em relação àquele que Sócrates deixou. Há mais vida para além do défice, dir-se-á. O problema é que essa vida não é muito risonha.

Em primeiro lugar, a questão da baixa natalidade, com a inversão da pirâmide demográfica, conduzir-nos-á a uma crise séria nos sistemas de pensões e de solidariedade intergeracional. À crise da natalidade há que juntar, nos últimos anos, o retorno em força da emigração, agora de uma emigração bem qualificada, na formação da qual o país investiu muito, e da qual não obterá um retorno sólido.

De um ponto de vista imaterial, existe um problema estrutural que diz respeito à inexistência de uma cultura de iniciativa e de gestão de riscos. Num mundo globalizado e de intensa concorrência, os portugueses possuem uma cultura onde a iniciativa e a responsabilidade são sempre dos outros. É um problema que não se resolve, obviamente, com a actual retórica, servida por inúmeros cursos, sobre o empreendedorismo. A ausência de capacidade empreendedora (para usar a horrível palavra em voga) é apenas um caso particular do problema geral de ausência de iniciativa, de um povo que foi e é – não nos esqueçamos – sistematicamente educado para obedecer e fazer poucas ondas. Ora não há coisa que faça mais ondas do que ter iniciativa.

Por fim, o drama de um desemprego estrutural que não deriva só da intervenção da troika, mas que se deve ao atraso do país em relação a uma economia que tem no seu núcleo central, mesmo em actividades tradicionais, a digitalização. Muitos dos dramas que se abatem sobre muitas centenas de milhares de pessoas devem-se a uma desadequação das empresas, dos empresários e dos trabalhadores às novas formas de racionalização trazidas pela revolução das tecnologias da informação e da comunicação.

Demografia negativa, cultura social ineficaz e desadequação tecnológica, mais do que o défice público, são os problemas que precisam de ser compreendidos, pensados e enfrentados. Seria interessante ouvir o que os partidos políticos têm a dizer sobre eles, tendo em conta as circunstâncias em que nos encontramos e os limites a que nos submetemos. Todos sabemos, porém, que em vez disso vamos ter direito a fogo de artifício e a jogos florais. O habitual.