sábado, 15 de agosto de 2015

Questões de família

Paul Gauguin - La familia Schuffenecker (1889)

Uma das marcas dos países do sul é o seu funcionamento em família e a importância que esta tem para os indivíduos. São as famílias propriamente ditas, mesmo se disfuncionais, são as famílias políticas, as famílias desportivas, são os grupos de amigos que rapidamente se transformam em famílias. Uma família é uma aliança. Não há maior valor moral do que a preocupação com a família. Por que razão não deveríamos festejar a bondade dos vínculos familiares e o amor abrasador que deles brota?

Este amor tão ardente gerado no seio dos diversos tipos de família, porém, extravasa as suas fronteiras e invade o espaço cívico reservado aos indivíduos e à concorrência entre eles. Nas sociedades frias, onde o amor familiar é menos escaldante, as instituições esforçam-se por seleccionar as pessoas pelo mérito, aferido segundo um padrão racionalmente determinado. Escolhem os melhores, independentemente da família a que pertencem. Se, por uma irreflexão, alguém se lembra de evidenciar, numa instituição pública, um excessivo amor familiar, a palavra nepotismo soa logo em tom acusador, e as autoridades não sentem particular zelo por quem tanto ama os seus.

Nós por cá, europeus do sul, somos pessoas de amor profundo e não há gente melhor e mais capaz que os nossos, os da nossa família, seja biológica, seja política, seja a construída em torno de um interesse qualquer. No lugar do mérito, nós colocamos o amor. Será repreensível que alguém, para um cargo importante, escolha outro por amor? Não é este o mais enternecedor dos sentimentos? As nossas instituições públicas, até privadas, são teias onde o amor transborda, onde as famílias nunca estão em crise.

O pater familias – numa linguagem mais cristã e de matiz levemente siciliano, o padrinho – recebe o amor zeloso da família, enquanto vai cuidando dela, com bonomia e ternura. Isto tem um efeito. As instituições, como não seleccionam segundo o frio critério do mérito mas por amor, tornam-se lânguidas, e uma leve sensualidade amorosa coloniza a vida pública e privada. O amor de certas famílias é tão intenso que a tudo toca, a tudo ocupa, a tudo, o que não seja esse amor, consome.

Os frios nórdicos, fanatizados pela ideia de mérito, dizem que as nossas instituições são pouco competitivas, alguns sugerem que são de uma incompetência inaudita. Mas é gente que tem o coração seco e frio. Seremos pobres, seremos incompetentes, mas ninguém nos pode acusar de falta de amor e de não colocar, seja onde for, instituição pública ou privada, o sagrado vínculo familiar à frente de tudo, à frente mesmo da estapafúrdia ideia de que o mérito deve ser a base da selecção. (Jornal Torrejano, 2011/09/23)