terça-feira, 1 de setembro de 2015

A natureza da coisa

Gerhard Richter - Abstraktes Bild (1995)

Voltemos à natureza da coisa, isto é, da política. O alarido provocado pela intervenção de Paulo Rangel - fazendo ela própria parte desse alarido -, num evento dos pioneiros laranjas, torna patente o que está em jogo. Se o leitor está convencido de que numa eleições o que está em jogo são os projectos para o país, desengane-se. O que está em jogo é apenas e só (reforço o apenas e só) a manutenção do poder por aqueles que o têm ou a conquista do poder por aqueles que não o têm. Paulo Rangel agiu em conformidade e convocou um tema (Sócrates) que, eventualmente, pode ajudar a actual coligação a manter o poder.

Um programa político, com projectos para o país, não passa de uma imagem abstracta que não interessa a ninguém. Num país como o nosso, dado a dramas de faca e alguidar, o que pode ajudar à conquista do poder não são os projectos para salvar a pátria. O que ajuda é o sangue, a definição de vilões, o artifício retórico. O que ajuda é a construção de imagens concretas - Sócrates, o odioso; Salgado, o imperador derrubado - que, excitando as emoções da plebe, a conduza a pôr a cruz no local certo do boletim de voto. Rangel apenas seguiu o seu instinto político. Calculou as perdas e os ganhos de falar de Sócrates, e achou que ganhava mais do que perdia. Agiu em conformidade com a sua natureza de político, mesmo que isso fira uma suposta moralidade na vida política, mesmo que isso fira a presuntiva independência dos poderes político e judicial.

Por que motivo Rangel - ou outros agentes políticos - agem desta forma? A resposta é muito simples: porque os cidadãos gostam. E como os cidadãos gostam e manifestam a sua aprovação votando em quem faz coisas destas, o expectável é que os políticos, pois são essencialmente movidos pela vontade de poder, ajam desta forma. Se os portugueses querem que os políticos tenham outro tipo de comportamento, se acham que eles devem ter uma atitude mais responsável perante a coisa pública e os cidadão, então exijam-no deixando de votar naqueles que se entregam a este tipo de atitudes. A única coisa que os políticos - seja em que país for - entendem claramente é o número de votos. A qualidade das elites políticos é o reflexo dos respectivos povos. Se as nossas são paupérrimos, se se entregam a este tipo de jogos florais, então temos de olhar para a natureza da nossa cidadania e perceber que ela é péssima.