terça-feira, 15 de setembro de 2015

Uma trilogia da morte


Descobri a 3.ª Sinfonia de Górecki ao ler um artigo cujo autor e lugar de publicação esqueci. Recordo apenas uma daquelas afirmações peremptórias que servem para balizar a história dos acontecimentos e que valem o que valem. Dizia ele que o século XX musical tinha começado com a Sagração da Primavera, de Igor Stravinsky (1913), e tinha acabado com a 3.ª Sinfonia de Górecki (1976).

Durante muito tempo a obra de Stravinsky exerceu sobre mim um fascínio total. Levado por esse fascínio procurei a obra de Górecki. A experiência foi devastadora. Quem experimenta a profunda alegria e a exuberante vitalidade proveniente da Sagração de Stravinski, não pode deixar de se sentir socado em pleno estômago pela obra de Górecki. A lentidão dos três movimentos que a compõem, sublinhados pela dolorosa voz da soprano, desenha o horizonte onde três textos ganham vida e se fundem numa elegia.

O primeiro texto é uma Lamentação da Virgem, do séc. XV. O segundo, um pequeno poema escrito nas paredes da cela por uma jovem prisioneira da Gestapo. O terceiro, a lamentação de uma mãe pela morte do filho na 1.ª Guerra Mundial. Se a Sagração era o símbolo da alegria portentosa da vida, a obra de Górecki fazia-me descobrir o símbolo musical que talvez melhor se adapte ao lutuoso século passado.

Esta simbologia pode, contudo, ser partilhada pela Paixão segundo S. Lucas (1966), de K. Penderecki. Também nela é a morte o centro temático. Está, porém, nos antípodas da de Górecki. Nesta é o sentimento de dor, a emoção da perda, a litania do sofrimento que crescem em nós. Na Paixão de Penderecki, é a mecanicidade da morte que é sublinhada pela violência sonora, pelo contraste entre o silêncio e massas sonoras crescentes. O que nela há de elegíaco esbate-se na violência com que se anuncia a morte de Cristo. Tudo está consumado. Eis o século XX em todo o seu esplendor.

A obra dessa época que prefiro é, todavia, o Quatuor pour la Fin du Temps, de Olivier Messiaen. Este quarteto para violino, clarinete, violoncelo e piano, escrito nos anos de 1940 e 1941, quando o autor estava preso pelos nazis, é, na sua complexidade musical, a obra onde melhor sinto a reconciliação com a vida. O tempo é a imagem da morte e do sofrimento e o seu fim é a vitória sobre essa morte. O Fim do Tempo é a esperança crística na eternidade da vida e na imortalidade do homem. A morte está presente no Quatuor de Messiaen, mas, na opressão que esboça, há sempre uma abertura para a eternidade, esse não-tempo onde a sagração da primavera será sem fim. (Jornal Torrejano (adaptado), 2004)