terça-feira, 6 de outubro de 2015

A menor das derrotas dos socialistas


O não ter ganho as eleições pode ser a menor das derrotas que os socialistas sofreram no domingo passado. Comecemos, porém, pela parte trágica da derrota de António Costa. Se os políticos tivessem a paciência e o interesse para meditar sobre as tragédias de Ésquilo, teriam muito menos dissabores. Seja o que for o que pensemos de António José Seguro – e eu penso, do ponto de vista político, muito mal – o acto de desafio de António Costa foi marcado por uma hybris (excesso, desmedida) que não augurava nada de bom. As erínias, essas vingadoras, fariam ouvir o seu zumbido quando fosse a hora menos propositada. Neste caso, foi no domingo. Mas onde se encontra o excesso de Costa? Em pretender que tinha a dar ao eleitorado algo que Seguro não tinha. Esta foi uma presunção fatal e é um dos grandes problemas dos socialistas.

Os socialistas portugueses – como os seus congéneres europeus – estão reféns das suas opções, aquelas que foram tomando ao longo das últimas décadas, e que não os diferencia em nada da direita. A principal derrota dos socialistas está na constatação de facto que, depois de terem liquidado a social-democracia que os orientava, não servem para nada. As políticas que propõem – salvo uma palavra aqui e outra ali, com paladar mais social – não se distinguem das da direita. E a maioria dos eleitores que votou nos partidos adeptos da austeridade preferiu a direita genuína em vez de uma direita com um nome de esquerda. O papel que os socialistas europeus tiveram no século XX acabou. Deixou de haver um meio-termo entre o liberalismo da direita e os sonhos marxistas da esquerda radical, digamos assim, deixou de haver lugar para uma moderação, como o próprio programa económico dos socialistas reconheceu.

Não menos preocupante é a fuga de votos do PS para o BE. É já segunda vez que acontece, mas não se trata da mesma coisa. E nesta diferença reside uma das grandes derrotas dos socialistas. Da primeira vez, os votos fugiram para o BE devido a Sócrates. Ninguém já suportava o homem nem a sua ministra Lurdes Rodrigues, nem os malabarismos de um governo arrogante. António Costa, porém, é diferente, não tem atrás de si governações polémicas, e vinha com boa imagem da Câmara de Lisboa. Tudo isso, contudo, não foi suficiente para segurar a esquerda do PS nem para atrair o voto que se deslocou directamente da direita para o BE. Ora os eleitores estão a fazer uma experiência. Muita gente que nunca votaria CDU não terá problema, como já se viu, em votar BE. E esta experiência pode acabar por fixar um eleitorado do BE bem superior aos seus 5% habituais. Os socialistas devem ter saudades do tempo em que à sua esquerda só existia o PCP.

Estes dois factores – ausência de um papel político específico e emergência de uma força política, o BE, capaz de penetrar em eleitorados onde o PC nunca entrou nem entrará – conjugados com a imagem do partido (casos Sócrates, Vara e de uma multidão de pessoas que, não tendo problemas com a justiça, ninguém suporta) conjugam-se numa síntese que deveria deixar os dirigentes socialistas – e todos aqueles que, com a derrota de domingo, acham que devem brincar às Electras e aos Orestes – de cabelos em pé. Estas eleições podem (escrevo podem e não foram) ter sido a porta para o aniquilamento do velho Partido Socialista. Não ter sido o primeiro partido, não ter ganho as eleições, foi a menor das derrotas dos socialistas.