segunda-feira, 5 de outubro de 2015

A vitória da coligação

Para além das percentagens e dos deputados eleitos, o que podemos ler – tanto quanto é possível ler no somatório de milhões de vontades e razões individuais – na votação de ontem? Antes de começar a leitura, um aviso à navegação. Uma coisa são os desejos e outra é o possível e realizável. Uma coisa é o princípio de prazer e outra o de realidade. O que nos dizem as eleições de ontem? Comecemos por uma análise dos resultados da coligação PAF (PSD/CDS). Nos próximos dias, olhar-se-ão os resultados do PS, do BE, da CDU e do PAN.

A coligação governamental teve uma vitória estrondosa, apesar de ter perdido a maioria absoluta e cerca de 700 mil votos. Por que razões enfatizo a vitória da coligação? Por 5 razões. Em primeiro lugar, conseguir ganhar as eleições, mesmo com maioria relativa, depois de quatro anos de uma governação radical (ir além da troika, mandar as pessoas emigrar, etc. etc.), embora suavizada com o aproximar das eleições, é um feito notável. Governações destas são, por sistema, reduzidas a pó nas urnas. Esta não foi.

Em segundo lugar, porque, com estes resultados, a coligação tem todas as condições, com pretextos mais ou menos irrelevantes, para fazer cair o seu próprio governo minoritário, alegando bloqueio da oposição, e ganhar umas novas eleições com maioria absoluta. Não nos iludamos com a voz mansa de Coelho e de Portas no dia de ontem. A candura das declarações fazia já parte da nova campanha eleitoral em curso. Os objectivos estão traçados: encostar os socialistas às cordas. Ou votam no que a coligação bem entender, depois de uma encenação de busca de consenso, ou a coligação gritará por tudo o que é sítio que não deixam governar quem ganhou. E a coligação é muito profissional a gritar.

Em terceiro lugar, porque consolidou Passos Coelho, à partida uma personagem menor, como figura central no sistema político português. Não interessa se se gosta ou não do líder do PSD. A verdade é que ele pôs Paulo Portas no lugar, tornando-o uma espécie de valete de quarto, liquidou António José Seguro e António Costa. A substância dos políticos testa-se na luta pela conquista e pela manutenção do poder e Passos Coelho tem passado nos testes, mesmos os mais difíceis, como o de ontem. Goste-se ou não.

Em quarto lugar, porque tem o PS, o maior partido da oposição, refém das suas posições. A grande descida de votos da coligação governamental e o pequeno aumento dos socialistas não foi suficiente para tornar a maioria governamental refém dos socialistas. Nas actuais circunstâncias políticas (sublinho nas actuais, pois a realidade é volátil e pode mudar), são os socialistas que estão reféns dos desejos e da vontade da coligação. E não se antevê que os socialistas se possam facilmente libertar do abraço que a coligação lhes vai dar. Qualquer alinhamento dos socialistas com a esquerda provocará uma tempestade tal que o largo do Rato ameaçará cair.

Em quinto lugar, é uma grande vitória porque o espaço ideológico a que pertence ficou claramente consolidado. Esta é a maior vitória da coligação de direita. Explico. Em 2011, Passos Coelho ganhou mentindo sistematicamente, atacando Sócrates pela esquerda, canalizando para si o descontentamento com a austeridade já em vigor no tempo de Sócrates. Em 2015, quase 40% do eleitorado, depois de ter experimentado um governo com políticas austeritárias e tintas liberais, disse que gostou e que quer mais.

A vitória ideológica da coligação não acaba aí. Os próprios socialistas apresentaram-se com um programa ideologicamente semelhante ao da coligação, talvez, em certos aspectos, ainda mais liberalizante. Mesmo assim, e apesar de ter perdido votos para a esquerda, a versão austeritária e liberal dos socialistas obteve mais de 30% dos votos. Cerca de 70% dos portugueses disse claramente que queria a política imposta por Bruxelas e determinada pela Alemanha, que queria ares mais liberais na economia e mais dissolução do Estado social, embora de forma mais gradual.

Dir-se-á que esta percentagem é a habitualmente obtida, talvez um pouco menor, pelo grupo de partidos do arco da governação. É verdade, mas há uma diferença absoluta. Até aqui esses partidos tinham essa votação na base de promessas mirabolantes. Nas eleições de ontem não foi assim. Quem foi votar sabia claramente ao que ia. Os 70% de eleitores votaram numa das versões caseiras do ordo-liberalismo dominante na Europa. Isto significa que, de uma maneira ou de outro, o papel do Estado como factor de igualdade sofreu uma pesada derrota, apesar das condições ontem enunciadas por Costa para haver acordo com a maioria.

Concluo como comecei. Uma coisa é o que desejamos e outra é aquilo que a realidade nos devolve. O que aconteceu ontem foi uma subtil mudança de território político, mudança imposta pela direita durante quatro anos e consagrada nas eleições. Quem não se revê nos princípios triunfantes o pior que pode fazer é achar que há uma maioria de esquerda na assembleia e que isso tem alguma consequência na governação. A questão será, de facto, outra: como trazer para dentro do novo território os princípios que parecem não ter lugar nele?