quinta-feira, 1 de outubro de 2015

E pluribus unum

Albert Rafols Casamada - La emoción y la razón (1965)

A propósito da vitória do Benfica, ontem em Madrid, recupero, adaptando, um texto antigo, a propósito dos 100 anos do SLB, sobre a paixão do futebol, a minha paixão, entenda-se.

Devido à influência da filosofia e das ciências, o uso da razão encontrou, nas sociedades modernas, uma hipervalorização. Mas a razão é uma luz que se enraíza no que há de mais obscuro no ser humano. Esse lado sombrio, esquivo à investigação, fugidio à claridade, manifesta-se nas múltiplas paixões dos homens: sejam as eróticas, sejam as da violência e do poder, sejam as do gregarismo e da pertença à comunidade. É deste lado umbroso que vou falar ao falar dos cem anos de fundação do Benfica, do meu clube do coração. Não por acaso emprego a palavra coração. Ninguém é adepto de um clube por um acto racional, por um cálculo utilitário, por uma razão ética. Ser-se do Benfica, do Porto ou do Sporting não está nas nossas mãos, fomos escolhidos mais do que escolhemos.

Das múltiplas paixões que me acometeram, a do Benfica é a mais persistente. Desde que me conheço que me sei “encarnado”. Posso traçar uma arqueologia dessa pertença, posso reconhecer a influência de meu pai, recordar a memória de meus tios também benfiquistas, apontar ainda o facto de ter crescido nos anos sessenta, nos anos gloriosos do clube. Posso racionalizar razões de pertença e dizer o prazer de fazer parte de um clube que combina uma forte raiz popular com um toque aristocrático dado pelo Dr. António Borges Coutinho, posso acentuar o prazer de não pertencer à família possidónia dos lagartos, etc., etc. Tudo isso é verdade, mas nada explica uma paixão, nada esclarece a alegria por um golo que é marcado ou a decepção por uma derrota.

As sociedades modernas racionalizaram os modos de vida e burocratizaram o mundo, mataram Deus e a vida comunitária, aniquilaram os símbolos e a festividade espontânea das sociedades tradicionais. Ora o futebol vem preencher esse lugar vago. Ele dá-nos sentimento de pertença e de partilha de valores, substitui a razão pelas emoções. Onde o homem moderno propõe argumentos, o futebol devolve-nos símbolos e uma festa garrida onde a cor dos clubes se combina com os sentimentos da alma. O futebol mostra-nos o outro lado de nós mesmos, mostra-nos que as nossas razões se erguem sobre paixões sem fim. Não há nada fazer! Resta apenas a esperança que amanhã sejamos campeões. Para quê? Para nada e para tudo, para que o coração se alegre e a vida tenha um momento de festa antes que o fulgor da morte sobre ela se abata. E isto é uma aspiração de todos ou como diz, em tradução livre, a divisa do Benfica: De todos e de cada um (E pluribus unum) (Jornal Torrejano, Abril de 2004)