segunda-feira, 26 de outubro de 2015

O pós-Ocidente

Shen Zhou - Branche de néflier

Assim, em última análise, o «post» da pós-Modernidade revela-se como o «post» de uma idade pós-ocidental que ainda se busca a si própria. É um «depois» que sacode as grades do presente e dá expressão a uma claustrofobia dos tempos do fim. (Peter Sloterdijk, A Mobilização Infinita, p. 218)

Quando Peter Sloterdijk escreveu estas palavras ainda o muro de Berlim não tinha caído. Eram, porém, já claros os indícios de que o Ocidente deixara de ser o centro da história. O período que vai de 1917 a 1989, devido à pressão exercida pela ideologia marxista, em vigor numa parte substancial do planeta, tem uma natureza equívoca. Equivocidade essa intensificada pelo facto de o comunismo pretender ser uma saída da história e o socialismo real pretender ser uma história que quer deixar de o ser. Ora esta relação conturbada do marxismo com a história, essa perspectiva pré-moderna e pagã que foge à linearidade mortal da história, foi, após a queda do muro e de imediato, abraçada pelo liberalismo triunfante, que não via, nem vê, nada para além da sua própria vitória e a submissão do mundo à utopia do mercado livre.

Aquilo que se passou de 89 para cá, apenas confirmou a intuição irónica de Sloterdijk. Mesmo que os EUA ainda sejam, e por muitos anos, a principal potência militar do mundo, a verdade é que vivemos claramente numa «claustrofobia dos tempos do fim», vivemos, ao mesmo tempo, no aurora de um mundo que não conhecemos, que não sabemos designar. Mas o ponteiro da história volta-se decididamente para Oriente. O domínio dos EUA representa apenas o tempo da agonia do Ocidente.

Mas o que será esse pós-Ocidente? Não pode ser outra coisa senão o Oriente. Aqui há duas alternativas. Ou o Oriente que triunfa se funda nas tradições de razoabilidade que, da China à Índia, passando pelo Japão, sempre existiram, ou o Oriente é o Médio-Oriente e a tradição do Islão. A herança ocidental, pois é já disto que se trata, apesar de ser constituída por uma parte substancial recebida do Islão, parece ser melhor recebida e trabalhada no Extremo-Oriente. Nestas últimas décadas, as culturas orientais têm dado provas de uma grande capacidade plástica para, sem alterar os seus valores fundamentais, absorverem a cultura ocidental.

Seja como for, a verdade é que entre a Europa e esse mítico Oriente há uma barreira, o mundo inquieto do Islão. O que é perturbante não é a possibilidade de a nossa civilização não sobreviver. Sobreviverá nesse Oriente extremo. O que é perturbante é imaginar que a Europa possa não sobreviver, apesar da sua cultura se ter propagado e entranhado, em parte, no Oriente. A demografia, o cansaço, a velhice não auguram nada de bom perante vizinhos tão jovens e irrequietos. (averomundo, 2008/01/21)