quinta-feira, 22 de outubro de 2015

Senhor de si

Oscar Dominguez - Libertad (1957)

Como muitas vezes acontece, a perversidade pode nascer daquilo que tem um valor intrinsecamente bom. A democracia e o conjunto de direitos que estão na sua base, entre os quais os direitos sociais, são coisas que têm um valor intrinsecamente bom. Move-os o respeito pela liberdade, pela pluralidade de pontos de vista, pela solidariedade comunitária e pela partilha vantajosa para todos de recursos escassos. A perversidade inscreve-se numa das atitudes que geram o fenómeno da abstenção política. Essa atitude é a da decepção.

Essa decepção pode ter várias motivações. Por exemplo, a decepção com a pouca qualidade das elites políticas. Aquela decepção que, porém, é a mais perversa é a que radica na expectativa de que os políticos e a política teriam de tornar as pessoas felizes, teriam de contribuir decisivamente para o bem-estar individual. O corolário desta perspectiva é que a minha infelicidade não se deve a mim, mas que eu sou vítima da malevolência de terceiros. A punição é a da abstenção política e um ódio contumaz a todos os que se dedicam à política.

É evidente que as opções políticas favorecem ou prejudicam certos grupos, mas, em última análise, eu tenho de ser responsável pela minha felicidade e não posso esperar que ela me seja oferecida pela benevolência do governante. A perversão que a política introduz reside na expectativa de que a minha vida deva ser resolvida por outros. Isto significa que eu não sou livre e, por isso, estou destituído de toda e qualquer iniciativa. O grande desafio que se coloca é compatibilizar uma democracia política com direitos sociais e o desenvolvimento nos cidadãos um sentimento de responsabilidade última pelos seus destinos, o sentimento de ser senhor de si.