domingo, 1 de novembro de 2015

A tirania da mediocridade

Tom Wesselmann - TV Still Life (1965)

Toda a minha vida vivi rodeado de jornais e de informação. Quando nasci havia a imprensa escrita e as emissoras de rádio. A RTP dava os primeiros passos em Portugal. A televisão cresceu comigo, diversificou-se, secundarizou jornais e rádio, viu chegar a internet e o mundo da comunicação e da informação digitais. Os meios de comunicação foram aumentando e o ruído dessa informação cresceu à minha volta. Sempre fui condescendente e, por vezes, surpreendo-me com um espírito de coleccionador de inutilidades.

Na universidade aprendi que Hegel teria dito, talvez no início do século XIX, que a leitura matinal do jornal é a oração da manhã do homem moderno. Estaríamos perante uma meditação sobre os caminhos do espírito do mundo. As possibilidades de oração, de lá para cá, como referi em cima, multiplicaram-se. Há anos que não compro um jornal de papel, mas tenho quatro assinaturas de jornais em versão on-line. O problema é que, passadas tantas décadas de esforçada oração ao espírito do mundo, o deus a que a informação presta culto, descobri há muito, não é mais do que um ídolo, um ídolo com pés de barro.

Nos últimos tempos, uma voz obscura fala dentro de mim. Não fala, murmura. O murmúrio que oiço diz-me que é tempo de frugalidade e que não há maior frugalidade que a pura abstinência. Abstinência significa aqui libertar-se da tirania da informação, emancipar-se do culto do ídolo mundano. O ruído constante da esfera pública não é apenas um sinal da crescente – e ao que parece imparável – poluição espiritual do homem. É o exercício sistemático de uma ditadura. A ditadura dos media, a qual deve ser entendida como a tirania da mediocridade. A mediocridade que impõe as suas regras e lança um véu escuro sobre o olhar dos homens.