terça-feira, 3 de novembro de 2015

Na vale da minha mudez

Rufino Tamayo - O homem perante o infinito (1950)

“Aquilo que é contrário é útil; aquilo que luta forma a mais bela harmonia; tudo se faz pela discórdia”. Neste fragmento do filósofo grego Heraclito, escrito há cerca de 2500 anos e recolhido por Aristóteles na sua Ética a Nicómaco, está toda a sabedoria do mundo. Tudo o que existe é tocado pela contradição, o conflito e a discórdia. Mesmo a mais bela harmonia nasce da luta. O mundo das coisas e dos homens é conflitualidade sem fim e a paz perpétua não passa de um belo mas infundado desvario.

A verdade deste mundo é crua, amarga e sem cura. Nessas horas em que tudo se torna assim tão nítido, há que voltar ao essencial. “Coloca uma palavra / no vale da minha mudez / e planta florestas de ambos os lados, para que a minha boca / fique toda à sombra.” (“Salmo 4”, in Tempo Aprazado).

Deixemo-nos instruir pela voz da poetisa Ingeborg Bachmann. Num mundo onde todos se julgam com direito à palavra, Bachmann mostra o silêncio como a nossa condição primordial (no vale da minha mudez) e a palavra que habita a nossa fala como uma dádiva vinda não se sabe de quem (coloca uma palavra /…). Esta é a humilde condição do Homem: condenado, na origem, ao silêncio, recebeu em sua boca, como um dom, a graça da linguagem. Na sua sabedoria, porém, a poetisa adverte: não te orgulhes do que te deram e não julgues ser tua a palavra que a tua boca profere. Por isso, os versos finais surgem como uma oração para que não se caia em tentação de afirmar seu aquilo que foi depositado em sua boca (planta florestas de ambos os lados / para que a minha boca /fique toda à sombra).

Colocar a boca à sombra e deixar refulgir a palavra; escutar em vez de falar. Eis, para os homens, a mais difícil das disciplinas. Já Heraclito o tinha compreendido quando, no fragmento 19 recolhido por Clemente, diz “eles não sabem escutar nem falar”. Ao perderem a disciplina da escuta, perderam a humildade essencial de quem se sabe devedor da palavra que usa, e tornaram a linguagem não no sinal que pacifica os homens pela comunhão do escutar e do dizer, mas numa arma de arremesso no eterno conflito que o animal humano entretém por toda a Terra.

No ruído que infesta o mundo, na multiplicidade de palavras com que os homens enchem o espaço público e escondem a sua verdadeira e frágil condição mortal, há uma rasura da verdade: a palavra, a fala, a linguagem, nunca é minha, nunca é daquele que fala, mas um dom que se recebe para se transportar até à próxima geração. A palavra foi-nos dada como sinal de um outro mundo para além do mundo onde o conflito, a discórdia e a contradição reinam. O orgulho desmedido do homem, todavia, apropriou-se dela como uma arma terrível contra o outro. Como o burro de Heraclito, escolheu a palha em vez do ouro.

Para além da sabedoria do filósofo há, porém, a sapiência do poeta. Não seria inútil colocar a boca à sombra e retornar ao vale da mudez. (Jornal Torrejano, Setembro de 2005)