segunda-feira, 30 de novembro de 2015

Tempo de Outono

Nicolas Poussin - Outono (1664)

A minha crónica para o número de Novembro da revista A Barca.

O Outono tornou-se uma metáfora, talvez demasiado frágil, para os dias que nos estão a ser dados a viver. Escrevo enquanto a cidade de Bruxelas está em estado de alerta máximo e Paris tenta reerguer a cabeça, após os atentados do 13 de Novembro. O Outono é um tempo de indecisão, no qual a força solar do Estio cede, pouco a pouco, à queda da luz e se abre à noite invernosa. Ainda há pouco anos a Europa era o lugar luminoso que, grande parte do mundo, gostaria de copiar, o sítio no qual uma vida livre e despreocupada se aliava à capacidade de gerar riqueza e distribuí-la. Isso acabou.

Hoje a Europa começa a ser o lugar onde, lentamente, o medo se instala, onde as ruas se enchem de polícias e de militares, onde os cidadãos olham para o lado desconfiados. A Europa e os seus valores tornaram-se o alvo a abater. A monstruosidade sangrenta e delirante, o terrível dionisismo feito de sangue, morte e alucinação erótica, trazem-nos um pesadelo para dentro de casa e mostram-nos que os valores da civilidade não são dados adquiridos. Começamos a perceber que podemos ser expulsos do pequeno paraíso que nasceu, após duas guerras mundiais, do medo de nos matarmos de novo uns aos outros.

O carácter outonal dos nossos valores alia-se ao Outono da nossa demografia. E isto é um convite para aqueles que odeiam a liberdade, a igualdade entre homens e mulheres, que não suportam que cada um decida por si mesmo o que há-de fazer com o dom da vida. É um convite à intrusão do inimigo. Está a chegar o momento em que nós, europeus, teremos de decidir o que queremos. Já não se trata de distribuição de riqueza, de acesso a lugares e a reconhecimento. Trata-se, pura e simplesmente, de decidir se queremos continuar a ser europeus. Trata-se de tomar a decisão se este tempo outonal se vai transformar, ou não, no Inverno do nosso descontentamento.