domingo, 8 de novembro de 2015

Uma iluminação de domingo

Roberto Matta - Disasters of Mysticism (1942)

Por vezes retiro do acaso uma luz especial que me ilumina, que me deixa ver a causa maior do desastre que eu sou. Poderia argumentar – e não me faltariam excelentes e abundantes argumentos – que todos nós, desde os que vivem uma vida no subterrâneo da existência até aos que ocupam o mais glorioso lugar, seja no mundo ou nos altares, somos um desastre. Mas com o desastre dos outros posso eu bem. Estava eu a meditar por que razão as tardes destes domingos de outono soalheiros, cujo meio-dia é tão promissor, são tão propensas à irrealidade da angústia e da melancolia quando, por um súbito impulso, abro o blogue de Francisco Louçã, no Público, e leio, para parecer um homem preocupado com os nossos sarilhos quotidianos, o post Tudo depende da perspectiva. Não me interessa, para aqui, o conteúdo do texto. O leitor, se interessado, é só clicar no link e ler.

Fiquei siderado quando li: tudo se podia resumir assim: os factos são os factos, mas tudo depende sempre da perspectiva. Não se pense que aquilo que me iluminou foi a combinação de um realismo que crê na realidade dos factos e da humildade de um perspectivismo que confessa a existência de infinitas perspectivas sobre essa realidade factual. Não. O que me raptou da melancolia do crepúsculo dominical foi a afirmação os factos são os factos. Está aí a chave do meu desastre singular, do sem sentido de toda a minha existência. Por muito que me esforce, falta-me este sentido de realidade que, com uma humildade perspectivística, é confessado por Louçã.

No fundo de mim, reconheço-o e confesso-o contrito, nunca acreditei que os factos são os factos. Dito de outra maneira, nunca houve em mim uma réstia de realismo. Sempre pensei – ou, para ser mais exacto, há muito que o penso – que os factos não passam de meras interpretações que unificam e sintetizam o heteróclito da experiência, mas que, na verdade, não existe essa coisa última a que todos nós, se movidos pelo sadio bom senso, chamamos factos. É evidente para mim, nesta hora sombria que antecede a noite de domingo, que não acreditar na existência de factos, não acreditar nessa coisa que é a realidade, não poderia trazer-me nada de bom e que, por isso, a minha vida, por decreto dos deuses da factualidade, não poderia ser outra coisa senão um grande desastre, o qual só é poupado aos homens bons que acreditam na existência de factos. Fez-se noite.