sábado, 12 de dezembro de 2015

A arte do fingimento

Francis Bacon - Painting of a Dog (1952)

Ocupem-se de coisas sérias. (Sólon)

Talvez na distante época de Sólon de Atenas ainda fosse claro aquilo que era uma coisa séria e com a qual os homens teriam o dever de se ocupar. Sólon cuidou de legislação e de poesia lírica. Hoje em dia, porém, quem se atreve a dizer que legislar e fazer poesia são coisas sérias? Basta ouvir o rumor da voz do povo para perceber que ninguém leva a sério os pobres legisladores. Quanto aos poetas, isso nem é sequer considerado uma ocupação. O problema é que nos dias que correm os homens podem ocupar-se de uma multiplicidade quase infinita de coisas, mas no fundo, por mais aparente que seja a paixão com se entregam às suas ocupações, todos pressentem que tudo é pouco sério. Em vez do imperativo de Sólon ocupem-se de coisas sérias, será mais apropriado prescrever: finjam que são sérias as coisas de que se ocupam. Nada melhor do que a arte do fingimento.