domingo, 20 de dezembro de 2015

Nanni Moretti - Minha Mãe


O que filma Nanni Moretti na sua última obra, Minha Mãe? Poder-se-á sempre afirmar que  núcleo central é a crise que atinge a protagonista, Margharita Buy, uma importante realizadora de cinema confrontada com o declínio irrevogável da mãe, as peripécias do filme que está a realizar, os naufrágios amorosos e a adolescência da filha. Uma crise que acaba por atingir o núcleo mais fundo da sua identidade. Esta crise de identidade não é apenas a de Margharita. Atinge também o irmão, Giovanni, que a acompanha no apoio aos últimos tempos da mãe. Também este acaba por pôr em questão o seu papel social, despedindo-se da empresa onde trabalhava como engenheiro. Estaríamos aqui perante crises da meia idade, no momento em que a geração dos pais desaparece.

Ler o filme de Moretti como uma reflexão sobre crises existenciais ou uma meditação sobre a depressão é olhar para o efeito, escondendo a fonte originária destas situações, onde o self se vê ameaçado na estrutura narrativa com que se foi construindo. O que o realizador nos dá a ver é o próprio caos onde a vida se desenrola, o carácter não estrutural da existência, a impossibilidade das coisas e das pessoas permanecerem aquilo que aparentam ser. Poder-se-á usar uma metáfora proveniente da sociologia de Zygmunt Bauman para compreender o filme de Moretti. Este filma a natureza líquida, fluida da existência, e o impacto que essa fluidez tem nas nossas crenças e representações sobre essa mesma existência. Construímos uma imagem da existência como se ela fosse sólida, estruturada racionalmente e articulada segundo princípios lógicos, mesmo quando se trata da perda, nomeadamente da morte dos que amamos.

O que  filme nos mostra, porém, é que essa visão sólida da vida e de nós próprios é uma falsa consciência que oculta o caos que é a existência das pessoas. Há uma não racionalidade fundamental que emerge e rompe o dique que as consciências particulares dos sujeitos construíram para se defender do caos. O filme mostre como este caos estilhaça o cosmos e o impacto que tudo isso tem em Margharita, mas também em Giovanni. Não é apenas o declínio da mãe – uma antiga professor de Latim (aqui simbolizado como princípio lógico do mundo) idolatrada pelos seus alunos – que nos mostra a irrupção na consciência da desordem que é o mundo e a vida. É o olhar que Moretti deita sobre o cinema, através do trabalho de realização de Margharita, que deixa ver, por baixo do esquema racional solidamente ancorado na planificação que organiza a tarefa criadora, a desordem que se insinua em cada momento de filmagem. Isto para não falar das relações da realizadora com a sua filha ou com os seus namorados. Em todo o lado, o espectador confronta-se com o informe que desfaz as construções formais que os homens tecem para sobreviver.

A morte da mãe, entendida aqui como uma processo de declínio de uma estrutura doadora de vida, simboliza então essa irrupção na consciência dos sujeitos (neste casos dos filhos) de uma verdade insuportável: a vida é pura fluidez, sem contornos sólidos onde possamos firmar as nossas crenças, aquelas que nos permitam alimentar o desejo de eternidade. Moretti filma a realidade caótica de toda a existência e a brutal irrupção desse caos na consciência, destruindo construções ideológicas sobre a vida, representações de si, destruindo as crenças em que assentavam as identidades dos sujeitos. O espectador vê um processo de libertação. A libertação das ilusões que nos permitem viver, destruídas pelo vento existencial que sopra onde muito bem lhe apetece. O realizador italiano mostra ainda uma outra coisa, ao trazer o próprio cinema para dentro da obra: nem a arte foge ao caos e, se alguém pensar que a arte é um lugar sólido de salvação dos pequenos egos de cada um, então está profundamente equivocado.