quinta-feira, 3 de dezembro de 2015

O fim da política e o governo mundial

Diego Rivera - El Buen Gobierno (1924)

Se adoptássemos semelhante perspectiva (a de um governo mundial que transforme o Estado num aparelho administrativo), acabaríamos não na abolição da política, mas num despotismo de proporções maciças no qual o abismo separando os governantes dos governados seria tão gigantesco que qualquer espécie de revolta deixaria de ser possível, para já não falarmos de qualquer forma de controle dos governantes pelos governados. [Hannah Arendt (2007), A Promessa da Política, Lisboa: Relógio d’Água, pp. 86]

Este texto data de 1951, mas continua a manter plenamente a sua actualidade. Mais do que isso, ele desmonta um dos perigos que, sem nos apercebermos, começa a instalar-se no Ocidente. O desígnio político de uma parte substancial do Islão é o do estabelecimento de um califado universal, a ideia de um governo mundial regido pela ‘sharia’, a lei corânica, a qual aboliria o direito positivo das nações e submeteria todos os povos e todos os indivíduos à «lei divina». É fácil perceber que essa lei divina seria aplicada não por Deus mas pelos homens. Também é fácil perceber que essa situação configuraria aquilo que Hannah Arendt diz do governo mundial: um despotismo ilimitado e uma impossibilidade absoluta dos governados exercerem qualquer controlo sobre os governantes. (averomundo, 2008/02/12)