quinta-feira, 10 de dezembro de 2015

Onde está o mal?

Henri-Cartier Bresson - Gestapo Informer, Dassau, Germany (1945)

Ao ver esta fotografia, qualquer coisa em mim tremeu. É uma fotografia de 1945, tirada na Alemanha. O título, não sei se provirá do autor, o fotógrafo Cartier-Bresson, “Informadora da Gestapo, Dassau, Alemanha” introduz-nos, de imediato, num drama de vivido por milhões de homens e mulheres. Consta que “o fotógrafo captou o momento em que uma mulher reconheceu a sua delatora, que está a ser interrogada, e avança para a agredir perante o olhar de outros ex-prisioneiros”.

A minha perplexidade centrou-se numa pergunta que de imediato me acudiu ao espírito: onde está o mal? Num primeiro momento, tudo é simples. A delatora, aquela que estava do lado dos algozes nazis, representa o mal. Toda uma narrativa didáctica se poderia tirar dali: a delação não compensa, chegou o momento da vítima fazer justiça perante os olhos, por vezes irónicos, das outras vítimas. Tudo se expia e aquela mulher, que tinha enviado outros seres humanos para o sofrimento e a morte, tinha encontrado a sua hora de expiação.

O problema é que eu não sei quem é ali a vítima. Por vezes, chegam-me imagens do Portugal de 74, parecidas com estas. Arrepio-me com a simplicidade com que na altura eu olhava para os acontecimentos. Onde estavam as vítimas? Não quero com isto dizer que os sicários nazis e os delatores não fossem culpados, sumamente culpados. Eram-no. Não quero dizer que, em Portugal, o regime ditatorial e os seus homens não fossem culpados. Eram-no. Mas na altura em que perdem, tornam-se tão indefesos como o eram aqueles a quem eles perseguiram, maltrataram e assassinaram.

Esta fotografia não me fala da prisão de uma abjecta colaboracionista, nem do exercício de uma qualquer justiça, metafísica ou popular. Fala-me do horror de estar em minoria, do horror que é perder. Fala-me do horror da humanidade, daquela que está do lado moral e historicamente mau, mas também daquela que por vezes está do lado bom. A fotografia fala do horror da vingança, fala da tristeza e da pequenez que habita a nossa humanidade, fala da vergonha que deveríamos todos sem excepção ter, e que não temos. Olho a fotografia e pergunto, onde está o mal. O mal está em todo o lado e cuida de nós. (averomundo, 2007/04/10)