sexta-feira, 4 de dezembro de 2015

Um país liberal?

A minha crónica quinzenal no Jornal Torrejano.

Alguém convenceu Passos Coelho de que tinha uma missão providencial. O actual presidente do PSD não compreendeu que fora apenas eleito para pôr cobro aos desmandos de José Sócrates e não para uma aventura milenarista. Com ele, terá imaginado, Portugal tornar-se-ia uma pequena potência liberal. Rodeado por gente imbuída de semelhante credo e aproveitando, como justificação, a intervenção da troika, o ex-primeiro-ministro fustigou o país com este delírio disparatado, para horror daqueles que lhe sofreram as consequências e espanto da velha direita, que conhece bem o país e os limites que este impõe a tais devaneios. Por estranho que possa parecer a esta gente, Portugal não é um país anglo-saxónico. Não é a Inglaterra nem sequer a Irlanda. Tem uma cultura diferente e é com essa que tem de viver.

O problema central do país não é a dívida pública, mas a própria fragilidade da sociedade. Fragilidade que começa por uma capacidade de iniciativa reduzida, devido à falta de autonomia dos cidadãos, sempre embrulhados numa cultura que, mesmo nas empresas privadas, privilegia as redes clientelares à competência e autonomia da pessoa, e que acaba numa economia que ainda não conseguiu refazer-se da entrada no Euro e do choque da globalização. O que era exigido – e continua a ser exigido – é um esforço em várias frentes. Não descurar o problema da dívida e dos compromissos internacionais, mas, ao mesmo tempo, dar uma atenção muito especial à modernização da nossa economia – fazendo-a entrar definitivamente na época da digitalização – e, uma não menor atenção ao reforço da autonomia dos indivíduos, à capacidade destes intervirem na realidade, ao fortalecimento do poder de iniciativa.

Portugal não pode, de um momento para o outro, tornar-se um país liberal, mas pode ir, paulatinamente, adquirindo uma atitude mais liberal, menos dependente do Estado, mais de acordo com aquilo que é exigido pelo mundo onde nos encontramos. Em muitos países não anglo-saxónicos, a difusão liberal foi feita ao mesmo que tempo que foi reforçado o Estado social. Este não serve apenas como uma forma de assistência aos desvalidos. Ele funcionou e funciona como um reforço da iniciativa dos próprios indivíduos, o que acaba por ter um efeito positivo no desenvolvimento de uma cultura liberal. Depois do devaneio de Passos Coelho, chegou a vez de António Costa. O que lhe é exigido não é pouco. Fazer a quadratura do círculo. De mão dada com os partidos à sua esquerda, que desconfiam do liberalismo, dar passos decisivos na modernização do país.