segunda-feira, 11 de janeiro de 2016

A duplicidade em que vivemos

Jackson Pollock - White Light (1954)

Hoje assisti a uma conferência do físico Carlos Fiolhais sobre a história da evolução das concepções acerca da luz. Há neste tipo de acontecimento qualquer coisa que não deixa de me espantar. O espanto é gerado, em parte, pela confiança manifestada pelo conferencista no progresso da ciência. Diria que estava perante um digno herdeiro do iluminismo, de alguém que manifesta uma confiança na razão e na capacidade do homem em pôr problemas e de, através do esforço da razão, os resolver. Esta conferência, se tivesse acontecido nos anos 80, não me teria provocado o espanto que provocou hoje. O que terá acontecido de lá para cá? Fundamentalmente, o papel primordial da razão tem sido posto em causa nas últimas décadas. A emergência, no palco mundial dos fundamentalismos religiosos, veio desafiar as narrativas alicerçadas na confiança na razão.

Estava a assistir - com grande prazer, saliente-se - à performance  de Carlos Fiolhais e pensava, ao mesmo tempo, que muitos dos problemas que se colocam hoje em dia nascem de crenças sem qualquer alicerce racional, as quais desabaram na Europa e são hoje parte da sua vida. A Europa que se esforçou desde o século XVII para expulsar o mito da vida social, tornando-o um assunto da esfera privada, essa Europa que construiu um conjunto de instituições desencantadas, como muito bem o percebeu Max Weber, chega ao século XXI confrontada com narrativas que trazem consigo o mundo encantado, sob a forma de pesadelo, que tinha expulso por um trabalho laborioso de cinco séculos. E é esta duplicidade - a da afirmação da autonomia da razão e a da negação dessa mesma autonomia da razão - que não deixa de me espantar, de me dar que pensar.