sexta-feira, 29 de janeiro de 2016

A glória do amor

John Everett Millais - Love from Willmot's Poets

O amor, aliás, é sempre a revolta de um par contra o saber da multidão. (Robert Musil)

A fortuna que o amor alcançou entre os seres humanos dever-se-á menos aos estratagemas biológicos que, através das pulsões eróticas, a espécie utiliza para se reproduzir, do que ao espírito de revolta que representa um par de amantes. Ulrich, a personagem central de O Homem Sem Qualidades, de Robert Musil, distingue claramente o objecto dessa revolta. E este não é sequer a massa, a multidão, mas o seu saber, as suas crenças, opiniões e representações, pois estas são um cimento sólido dessa multidão.

Pedro e Inês ou Romeu e Julieta, no fervor da sua atracção erótica, sabem alguma coisa que a multidão não sabe. Esse saber é, como se sabe pelos desenlaces trágicos conhecidos, inaceitável pela massa. Esta sente sempre desconforto – em alguns casos, verdadeiro terror – perante esse isolamento dos amantes relativamente à opinião da multidão. Estes desconforto ou este terror dever-se-ão a quê? Aqui, Elias Canetti (Massa e Poder) pode ajudar. A revolta dos amantes contra o saber da multidão, o senso comum, contra esse saber que une os homens, traz com ela uma ameaça de desagregação da própria multidão.

É aqui que se percebe a fortuna que o amor alcançou entre a humanidade. Essa fortuna deriva de uma vertigem. Esta nasce de um conflito que se abre em cada amante. Por um lado, ele pertence à multidão, é formatado pelo senso comum, esse saber da massa, e quer que a massa não se desagregue. Por outro, ele deseja um conhecimento pessoal e não partilhável, um saber feito de experiência puramente privada, de uma experiência que põe em causa o saber da multidão e a própria multidão de onde ele saiu, mas a que pertence.

Mais do que os dons eróticos do objecto amado, é esta vertigem nascida do conflito entre a inclinação para o saber da massa e o desejo de uma experiência e de um saber privados que faz a glória do amor. E o amor persiste enquanto o par amoroso sentir a sua paixão como uma revolta, enquanto sentir a dilaceração entre aquilo que é o senso comum da massa e o seu saber privado, pessoal e intransmissível.