segunda-feira, 18 de janeiro de 2016

O prazer da multiplicidade

Valero Iriarte - Don Quijote armado caballero

Há dias, numa entrevista à Antena 2, o escritor espanhol Juan Goytisolo, a propósito do seu afastamento ideológico dos nacionalismos, tornava sua a perspectiva de Carlos Fuentes e afirmava pertencer à pátria cervantina. Eis uma pátria digna de se pertencer. Acrescentava, a dado momento, que tinha lido várias vezes o D. Quixote e, em todas elas, tinha encontrado uma obra nova. Ser cidadão da pátria cervantina significa então escrever de tal maneira que o leitor, cada vez que lê uma certa obra, descobre que está num novo território, com novas instituições, novas acções e novas personagens. Esta ideia define como ideal regulador da obra de arte o palimpsesto. Não porque a obra esteja escrita num pergaminho várias vezes raspado para reutilização, mas porque ela contém, em potência, uma multiplicidade de sentidos e de mundos. Assim, a arte - o romance, por exemplo - não é a produção de um sentido a partir de determinados materiais, mas o artifício de criar um potencial de sentidos, talvez infinito, a serem descobertos e configurados pelos leitores. Sob a aparência de uma unidade de sentido e acção, a obra de arte romanesca oferece ao leitor o prazer infinito da multiplicidade, no qual o mesmo leitor, se a tomar como um espelho, pode encontrar o prazer de se descobrir, também ele, como múltiplo, o prazer da sua própria multiplicidade.