sexta-feira, 22 de janeiro de 2016

Terapia

Nicolas Poussin - The Plague of Ashdod (1630)

A minha crónica quinzenal no Jornal Torrejano

A RTP teve a feliz ideia de adaptar para português uma série de origem israelita que gira à volta de sessões de psicanálise. Deu-lhe o nome de Terapia. Em cada dia da semana, um paciente confronta-se consigo mesmo no consultório do psicanalista. À primeira vista nada parece menos motivante para um telespectador do que assistir a uma consulta, onde um paciente fala e um psicoterapeuta escuta e murmura.

A verdade, porém, é que a consulta, apesar de não conter praticamente qualquer tipo de acção a não ser os diálogos, torna-se um lugar privilegiado de conflitos e suspense. De tal maneira que o espectador – como acontecia antigamente com os leitores de romances em folhetim – anseia pelo episódio da próxima semana para acompanhar o destino do paciente e ver o que lhe acontece.

Devido à evolução da televisão, tenho o privilégio de poder assistir a estes episódios à hora do telejornal e não quando são transmitidos. Também os noticiários trocaram a informação objectiva pela narrativa ficcional. São histórias sem fim, onde os pobres jornalistas se obrigam a inventar um discurso desconexo para não dizer coisa alguma, com a única finalidade de ocuparem o tempo de antena e, instrumentalizando a vida das pessoas, fazer com que a emissão de televisão saia mais barata.

A ficção informativa tornou-se, hoje em dia, uma ameaça à saúde pública, alimentando uma histeria mansa e sem fim, cujo resultado é impedir as pessoas de olhar objectivamente a realidade e de a avaliar criticamente. Poder ver, no lugar dos noticiários, uma série como Terapia não é apenas um prazer estético devido à qualidade dos diálogos e das intrigas. É uma verdadeira terapia contra o enjoo e o absurdo em que a informação se tornou neste pobre país.