segunda-feira, 25 de janeiro de 2016

Uma abertura

Antón van Dyck - The Mystic Marriage of Saint Catherine (1618-20)

Pensa-se que o misticismo é um mistério pelo qual entramos num outro mundo; mas ele é apenas, ou mesmo, o mistério de viver de modo diferente no nosso próprio mundo. (Robert Musil, O Homem Sem Qualidades III, p. 212)

Ulrich, personagem principal do romance de Musil, em conversa com a irmã, sublinha o traço central daquilo que é visto como experiência mística. Não se trata de uma fuga ao mundo, tão pouco será a invenção de um mundo imaginário para onde os místicos se transportariam. A ligação entre mística e religião contaminou a primeira com o imaginário da segunda, mas tudo parece ser mais simples e muito diferente. Em vez de uma transferência para o além, a experiência mística será uma sobre-atenção ao real, um exercício de ultrapassagem da visão rotineira e vulgar do mundo, uma ruptura com o hábito e, por isso tudo, uma abertura para o não visto, o não ouvido, o não sentido e - porque não? - para o não pensado. Em resumo, uma abertura para a realidade.